terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Verdade de Samantha






Samantha estava sentada no banco da praça do centro da cidade. O dia estava lindo, poucas nuvens, céu azul, pequenos insetos voadores pra lá e pra cá em busca de alimento, pessoas indo e vindo, apressadas, outras, despreocupadas. Era seu dia de folga e, ao invés de perdê-lo dentro de casa, dormindo (o que seria mais do que compreensível depois de um plantão pesado de vinte e quatro horas), ela resolveu descansar por algumas poucas horas e ir em busca de vitamina D, ar fresco e o que quer que a tirasse de dentro do quarto. Tudo bem que ela poderia fazer isso no segundo dia de folga, ou até no último dia de folga, mas resolveu ir de uma vez, pois sempre que protelava, acabava desistindo.

Tinha feito uma caminhada curta ao som de uma das muitas playlists fitness do Spotify, inspirando e expirando, sentindo o vento bagunçar os cabelos castanho-claros que iam até os ombros, e a luz do sol entrar por sua pele branca. Parou na banca de jornais da praça, comprou uma revistinha de palavras cruzadas e uma caneta, sentou-se e começou a exercitar a mente. Dado momento, ela começou a observar o lugar onde estava. Os insetos, o sol, o vento, o céu, as nuvens, os insetos, as pessoas. Seu olhar seguiu um casal de mulheres. Uma negra de cabelo afro, na casa dos trinta, com roupa de corrida, alta e esguia. A outra, ruiva, mais baixa e também vestida com roupa de corrida. As duas se olhavam com tanto carinho e afeto, os sorrisos iluminando os rostos uma da outra. Sem perceber, Samantha também estava sorrindo. Havia tanto amor ali, mas tanto, que transbordava e atingia as pessoas ao redor. Ao perceber que estava sorrindo, ela riu do fato e voltou para sua revista, mas não conseguiu se concentrar.

Pensou em Paulo, seu namorado. Estavam juntos há tanto tempo... Sete anos já. Como a vida passava rápido. Por que tinha que ser assim, tão rápido? E o detalhe maior: por que tinha que passar? Que o tempo passa, isso é inegável, mas porque algumas coisas se vão com ele? Coisas que não deveriam ir, se vão com uma facilidade incrível, enquanto as que deveriam, permanecem por um bom tempo, ou talvez pra sempre. Isso não estava certo. Não era justo que, depois de sete anos, os dois não se olhassem mais como aquelas duas. Claro, talvez elas não tivessem nem um mês de namoro, ou o que quer que existisse entre elas, mas... Samantha sentia falta daquilo. De ser transbordada pelo sorriso de Paulo. De ter o olhar dele aquecendo seu coração. De uns tempos pra cá o olhar dava mais atenção para o celular, sempre lendo algo sobre seu trabalho. Sempre havia alguma lei nova, ou mudança nos impostos e coisas do tipo. O mundo da Contabilidade sempre apresentava uma novidade extremamente interessante, a ponto dos olhos de Paulo se desviarem dos olhos dela, as mãos dele deixarem as mãos dela, e assim sua atenção estava de volta ao celular, o olhar estava atento, ávido, iluminado. A mesma luz que outrora era dela. E lá estava ela de novo no escuro, no frio, mesmo no verão, mesmo ao meio-dia. 

As colegas enfermeiras sempre perguntavam como estava o namoro, e se eles planejavam se casar um dia, e ela sempre dizia que ainda não estava na hora. Mas quando estaria? Paulo costumava fazer planos, ter ideias mirabolantes, algumas absurdas demais até pra ele, tão sério e ordeiro. Pelo menos foi assim por uns três anos, quando a luz dele a aquecia.

Seguiu para casa, caminhando devagar, sem prestar atenção nas músicas que tocavam. A mente estava longe, estava no início, quando os dois se viram pela primeira vez, ele extremamente elegante, de roupa social. Tinha saído de uma reunião e ido direto, e chegou ofegante, com medo de não querer perder o primeiro encontro! Calça e sapatos pretos, fazendo a camisa azul se destacar tão bem na pele morena. Ao se olharem, ele da porta do restaurante, surgiu em seu rosto um sorriso tão jovem, tão menino, tão... dele... Foi como se o lugar todo se iluminasse. O cheiro de seu perfume, Hugo Boss, ela se lembrava com clareza, deixando-a tão boba, tão apaixonada, pensando: "Puxa vida, como ele é cheiroso!". Pra onde tinha ido aquele sorriso? O que tinha acontecido? O cheiro ainda era o mesmo, mas não tinha a mesma intensidade. Tudo tinha mudado. Tudo tinha passado. Sete anos e tudo aquilo se foi. Era isso que o casamento significava? Perder sentimentos ao longo dos anos e ficar com a sensação de vazio pelo resto da vida, até que a morte os separe?

Ao entrar em casa, deixou revista, caneta, celular e carteira na mesa da sala de estar, foi ao banheiro e tomou um longo banho frio. "Não é possível que esse fosse o propósito de um casamento... não só do casamento, mas de uma união entre duas pessoas. Estaríamos nós todos fadados a isso?", pensou enquanto deixava a água cair pelo corpo. Desligou o chuveiro, se secou e enrolou a toalha no corpo. Parou em frente ao espelho e ficou encarando seu rosto molhado, os cabelos bagunçados no rosto. Arregalou os olhos quando um pensamento a assaltou. Ela também não o iluminava mais. Seu sorriso não o aquecia, nem seu cheiro tinha a mesma intensidade. Com o passar do tempo, começou a não importar tanto se ele não a levava pra jantar em seu restaurante preferido, ou simplesmente caminhar pelo centro da cidade nas noites de verão enquanto dividiam uma casquinha (Samantha nunca se importou de dividir, na verdade, preferia, era mais romântico). Passou a não considerar falta grave o fato de que Paulo não mandava mais mensagens de bom dia, nem o fato de que retribuía suas mensagens com um frio "Bom dia!!" (não encarava as exclamações como empolgação, mas sim como repreensão, como se ela o estivesse incomodando). 

Teria sido de propósito? Em sua mente tentava repassar todos os momentos desde que se conheceram, afim de se lembrar quando tinha acontecido, quando os dois tinham se tornado pessoas tão próximas, porém tão distantes ao mesmo tempo. Samantha também tinha parte naquilo tudo, ela era parte daquilo tudo. Seria sacanagem jogar toda a responsabilidade em cima de Paulo, quando ela também havia deixado seus sentimentos irem embora junto com o tempo. Foi quando uma vontade desesperadora de chorar fez seu rosto tremer e ela colocou a mão na boca: Samantha não o amava mais.

Leia Também:
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
FacebookTwitter


Nenhum comentário: