terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Verdade Libertadora





Paulo estava tão ansioso quanto no primeiro encontro com Samantha. Mais, até! Andava de um lado para o outro na sala do apartamento, passando as mãos nos cabelos, olhando para as janelas dos apartamentos vizinhos da sacada da sala, roendo as unhas, respirando de forma acelerada. Torcia para que ainda desse tempo, para que Samantha não tivesse desistido.

Samantha se identificou para o porteiro, que já a conhecia. O homem careca deu um sorriso e apertou o botão para que ela entrasse. Atravessou o pátio cimentado, virando à esquerda em direção ao segundo bloco. Apertou as mãos nos bolsos do sobretudo preto, encolhendo os ombros quando atingida por uma brisa. Usou a cópia da chave para abrir a porta, e assim que o fez, respirou fundo e subiu.

Ao ver Samantha, o coração de Paulo quase saiu pela boca. Ela estava linda, de jeans, blusa branca e sapatos de salto baixo, pretos, os cabelos presos num rabo de cavalo. Se sentiu extremamente mal arrumado por estar de calça de moletom cinza, camiseta de um congresso de Contabilidade na Bahia, e chinelos de dedo.

- Uau... você está... caramba...
- Obrigada. - Sorriu sem ânimo.
- Mas o que houve pra você vir tão arrumada assim na noite do look livre? Seria mais engraçado irmos fora do padrão pro hotel. Vamos beber algo antes ou lá?
- Paulo... - Samantha, que estava parada do outro lado da mesa de vidro, sentiu o rosto tremer e sabia que se abrisse a boca para falar alguma coisa, acabaria chorando, então respirou fundo várias vezes.
- Pode falar.
- Eu... Eu... - Focou num ponto na parede atrás de Paulo, tentando não chorar. - Não dá mais pra continuar. Eu... simplesmente não dá, não quero mais e acho melhor cada um seguir com sua vida.

O choque das palavras fez o corpo dele vibrar como se estivesse dormindo, como quando o braço dói depois de certo tempo com o peso do corpo sobre ele. Tinha preparado uma noite incrível, cada detalhe bem pensado, tudo para salvar seu relacionamento, mas era tarde demais. Samantha já tinha desistido.

- Entendo... - Disse após vários minutos de silêncio. - Pensei que ainda desse tempo, mas é esse o problema com os seres humanos, não é mesmo? A gente sempre acha que tem todo o tempo do mundo, até perceber que não é bem assim, e aquela eternidade se transforma num piscar de olhos. - Sorriu sem achar graça. - Eu não vou insistir, Samantha, mas... por que? Sei que não fui o melhor dos namorados nos últimos anos, mas...
- Acontece que eu não te amo mais, Paulo. - O choro saiu em seguida. Lágrimas desciam como cascata, os lábios tremiam. - Eu não te amo mais, e acabei me dando conta disso hoje, por isso que eu quero terminar, por isso que não dá mais. É injusto com você ficar te prendendo, te impedindo de conhecer alguém que realmente te ame, e que vá se dedicar a te fazer feliz. Você sabe que eu não quero te enganar, até porque eu ainda gosto de você e quero que você seja extremamente feliz, mas com outra pessoa, e não comigo.

Ele sorriu, e percebeu que estava aliviado. Há muito sentia por Samantha um amor diferente, amigável, fraterno. Haviam se tornado... amigos, que ocasionalmente se viam, jantavam juntos, assistiam alguma coisa em casa, e de vez em quando transavam. Ele sempre gostou, admirou e a respeitou, e vice-versa, e agora, com as palavras ditas, não havia mais volta, era hora de assumir de uma vez por todas.

- Do que você tá rindo?
- É que eu ainda amo você, né? Mas não como namorada. Eu acho que nos tornamos bons amigos com o passar dos anos. A nossa dedicação ao namoro foi diminuindo, enquanto a da amizade e parceria foi aumentando.
- Bem, eu tenho que concordar. - Enxugou as lágrimas, tentando controlar a respiração. - Nos acostumamos à companhia um do outro, e mesmo que às vezes eu ficasse irritada com o fato de você querer ficar em casa ao invés de irmos jantar, confesso que gostava de vir pra cá, ou de você ir pra lá, e ficarmos assistindo filmes, ou conversando um pouco, afinal, você resolveu se casar com o trabalho.
- É... sobre isso, me desculpa. Não sei bem em que parte do caminho eu me deixei levar pelo trabalho e deixei todo mundo de lado.
- Tudo bem, eu também tenho uma parcela de culpa nisso tudo, afinal, poderia ter dito que estava insatisfeita com o que estava havendo, e quem sabe, você acordaria e ainda seríamos um casal de namorados, mas...
- Você não me ama mais como namorado. - Piscou pra ela, dando uma gargalhada, dessa vez, sincera.
- Bingo!

Após um breve silêncio, os dois caíram na gargalhada, ela se apoiando na parede, ele com as mãos nos joelhos. O que tinha acabado de acontecer? Que tipo de término era esse?

- Amigos, então?
- Acredito que sim. Sempre seremos amigos.
- Certo... Então, o que acha de curtir uma noite com seu melhor amigo? Eu reservei um quarto de hotel de frente pro mar, com um cardápio todo especial. Era pra minha namorada, mas...
- Que proposta irresistível. Eu topo!

De repente estavam os dois em direção ao hotel, rindo, ouvindo música alta, conversando, sendo francos um com o outro, e Paulo teve um estalo. Planejou aquela noite para ser um recomeço para eles, e realmente foi! Só que não da forma como ele havia pensado, porém, estava satisfeito com o que a vida havia proposto.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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