segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Brotheragem e Sigilão





Sempre achei engraçada a expressão não-gay-hetero-fora-do-meio "no sigilo", mais popularmente conhecida como "sigilão". Porque sim, naquela época em que eu não sabia ou fingia não saber o que era, do que gostava, como me sentia, eu era do tipo discreto e fora do meio. E ali, no interior do Rio de Janeiro, vivendo na minha Smallville particular, o sigilo era fundamental. Pensem bem. Estou falando do início dos anos 2000, quando ainda não existiam os APPs de pegação e o bate-papo do UOL ainda era a principal fonte para se conhecer pessoas pela internet.

O tempo passou, a humanidade evoluiu mas as coisas continuam iguais. Eu assumi a minha própria hipocrisia e tenho tentado levar uma vida descomplicada, mas a realidade é que o sigilão continua aí à nossa volta, agora com a companhia de outra expressão que se popularizou nos últimos tempos, a "brotheragem". Nos perfis do Grindr e do Hornet, onde troncos e costas se oferecem para sexo rápido e sem compromisso, sempre no sigilo. E, claro, no bate-papo UOL, que ainda existe (eu juro, fiz um teste para escrever esse texto) e as salas estão lotadas de homens comprometidos que buscam alivio de suas necessidades sexuais, sempre no sigilo e escondidos de suas vidas e suas mulheres.

Que vida de merda, não é mesmo? Sim, é uma vida de merda, eu posso atestar. A gente é criado em uma sociedade hipócrita e cheia de preconceitos, que trata nossos desejos como errados e anormais. E a forma como resolvemos isso? Vivendo vidas baseadas em mentiras, enganando a nós mesmos e aos demais, procurando satisfações imediatas e fugazes, sempre no sigilão e na parceria. Parabéns pra todo mundo responsável por esse ciclo vicioso e deprimente.

Durante minha pesquisa no bate papo do UOL para escrever esse texto, eu confesso que fiquei assustado. Mais que nos APPs de pegação, as salas de bate papo continuam cheias e frequentadas por homens que se escondem atrás de nick names interessantes como Heterão no Sigilo, Buceteiro na Encolha, e Brotheragem de Macho. Em sua maioria, trata-se de homens casados, com famílias constituídas, que buscam aventuras rápidas e descompromissadas com outros homens, que os aliviem durante algum tempo, nas únicas fodas em que podem se permitir realizar os desejos e fantasias que povoam suas mentes. Tudo no sigilo, escondido de seus pares, antes daquele happy hour com os amigos do escritório regado à cerveja e conversas sobre futebol e aquela gostosa na outra mesa que deixa todo mundo excitado.

E são esses mesmos homens que dão voz à família tradicional brasileira. Que bradam contra o fim da moral e dos bons costumes. Que se chocam com o que é mostrado na televisão, provando assim a degradação da nossa sociedade. Homens """hétero""". Homens de família. Mas que adoram se perder nos corpos de outros homens, realizando fantasias inconfessáveis, sempre de maneira secreta, na brotheragem e no sigilão.

E eu penso em vidas sem sentido, em pessoas ocas e na infelicidade alheia. É tanta gente com medo de ser quem efetivamente é, mentindo pra si mesmo com tanta vontade que é quase possível que realmente acreditem ser quem afirmam que são. Heteros. Mas daquele tipo que curte homens. Mas sempre na brotheragem. No sigilão.

Repito: que vida de merda, meu Deus, que vida de merda!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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