quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Hipócritas Desde 1500





Muito já se falou sobre a nudez na obra do artista Wagner Miranda, no MAM de São Paulo, e o seu contato com uma criança durante uma performance. A tradicional família brasileira atacou novamente e, com agressividade, já o taxou de pedófilo (se você procurar por “artista pedófilo” no Google, já aparecem notícias sobre o episódio) e nojento. Sequer sabem do que se trata pedofilia. Não é de se surpreender, já que há quem se ofenda com uma mulher amamentando uma criança ou com duas pessoas que se amam abraçadas só por serem do mesmo sexo.

O Brasil não está tendo mais vergonha de mostrar a sua face mais retrógrada, quadrada e chata. Enquanto debatemos isso aqui, recebo a mensagem de um amigo que está na Alemanha e foi para um complexo de piscinas e saunas naturistas com famílias, inclusive sua irmã grávida de sete meses, rodeado de crianças. Todos nus, interagindo e sem qualquer conotação sexual. No Brasil, o falso moralismo impera desde 1500, quando os portugueses aqui chegaram e consideraram selvagens os homens nus e pagãos que aqui habitavam. Antes tivesse sido como no poema de Oswald de Andrade:

“Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português”

Confunde-se nudez com erotismo, justamente porque se convencionou que o vestido era o correto e colocou-se Deus no meio. Eu já falei aqui no Barba Feita que não lidava bem com a nudez desde pequeno, só fui ir a um ambiente naturista a primeira vez em uma praia super vazia no Uruguai já com 30 anos (pra ter certeza de que quase não veria ninguém e, quem eu visse, eu não conheceria), mas por outro lado, tive uma criação por parte dos meus pais sem muitos dedos nesse sentido. Quando era pequeno, não eram raras as vezes em que os via nus, via minha irmã nua, meus primos e primas... Tudo era extremamente natural e sem qualquer conotação. Pelo contrário: a noite do banho coletivo com meus pais e irmã no chuveiro (ou seria mangueira?) dos fundos da nossa primeira casa, em Santa Rosa, Niterói, era muito divertida. Cansei de ajudar minha irmã a tomar banho e vice-versa, quando éramos pequenos. Foi uma ruptura natural o ponto em que vimos que os nossos corpos se modificaram e não havia mais sentido em ter aquela intimidade, ainda que nunca houvesse qualquer tipo de conotação erótica envolvida em qualquer membro da minha família.

Evidentemente que sei que boa parte dos abusos ocorre justamente de pessoas próximas. Pais, tios, avós, amigos dos pais... Sei que existe toda uma construção para explicar às crianças que não se deve aceitar que os adultos as toquem de forma diferente. Por esse motivo, talvez eu, se fosse pai, não levaria minha filha para tocar o corpo de um homem estranho nu, sem a sua compreensão. Mas daí a considerar que uma pessoa é pedófila porque uma criança tocou o seu pé no exercício de sua profissão, que não tinha finalidade sexual ou erótica, acompanhada por um responsável previamente avisada do conteúdo de nudez, são outros quinhentos. Concorda que ninguém se torna zoófilo se um cachorro se esfregar na pessoa pelada? Ou, indo mais longe, mesmo se por curiosidade lamber alguma parte íntima sua?

Escrevi um livro inteiro sobre sexo. Nele, falo de nudez erotizada. Falo de abuso de incapaz e pedofilia. Falo de assédio, chantagem sexual, pornografia e incesto. No último domingo, minha sobrinha de três anos saiu nua do banho e minha mãe pediu para eu enxugá-la. Ela relutou, provavelmente já bem explicada que deve evitar que interajam com ela naquela circunstância. Foi necessário minha mãe explicar que eu não tinha problema em secá-la e colocar sua calcinha. Mas será que todos pensam assim? Será que o fato de eu ter escrito um livro com essa temática, com essas abordagens, pode ser uma desvantagem se eu quiser adotar uma criança? Será que vão pegar a minha foto, taxar de pervertido, pedófilo e incestuoso, por ter pensado todas aquelas histórias?

Infelizmente, nosso país está cheio de gente hipócrita que julga, que lincha publicamente, mas que, nas internas, adora procurar uma “novinha” no X-Vídeos. Que cultiva a tradicional família, mas torra dinheiro com prostitutas ou com motel com a secretária. Que acha que tudo pode no Carnaval e que assistia à Globeleza somente coberta de tinta desfilando na TV da sala com normalidade. Que xinga a presidente em exercício de vaca, piranha, puta ou sapatão, que coloca uma imagem dela de pernas abertas no tanque de gasolina do carro para inserir a mangueira, mas que não faz o mesmo quando é um homem que está no poder, ainda que com reprovação maior.

Hipócritas!

Pois é, caro Oswald, que pena! Antes tivesse sido 22 de abril de 1500 uma manhã de sol...

Imagem de abertura: O desembarque dos portuguezes no Brazil ao ser descoberto por Pedro Alvares Cabral em 1500, Litografia da Companhia Nacional Editora, 28x42 cm

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Mila Seidl disse...

Que texto! Uauuuuuuu
Bjo
Mila seidl