sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Ódio Virtual é a Nova Versão do Holocausto





Para quem ainda não sabia a minha idade, chegou a hora de desvendar.  Nasci em 1969.  E, para contextualizá-los, época da guerra do Vietnã em pleno andamento, e da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.  O mundo via a corrida espacial com a chegada do americano Neil Armstrong pisando o solo lunar pela primeira vez, e a liberdade flower-power do lendário Woodstock, o maior festival de rock de todos os tempos. Por mais incrível que pareça, este ano também marcou o “nascimento” do que viria ser, décadas depois, a internet.  Em outubro, a primeira mensagem foi enviada por um sistema chamado Arpanet, um embrião da rede mundial de computadores. 

Caos, guerra, tecnologia e contracultura caminhavam juntos, embolados como um universo em expansão após o Big-Bang.  No Brasil, vivíamos o auge do período da ditadura militar com o General do Exército Emílio Médici na presidência.   Apesar da divulgação de que o país vivia um momento de “milagre” com o crescimento da economia e projetos de desenvolvimento com a construção da Transamazônica, a Usina Hidrelétrica de Itaipú e a Ponte Rio-Niterói, existia o lado obscuro da repressão, a tortura e o assassinato de civis que eram contrários ao sistema governamental ou que emitiam qualquer manifestação de opinião.  Eram os chamados “anos de chumbo”, com a completa mordaça nos meios de comunicação, artes e cultura em geral.

Como meu pai e meu avô eram militares, nunca vivi na pele a realidade dos civis, mas desde cedo tinha completa consciência de que algo estava errado no ar.  Aos cinco anos, no jardim da infância, eu tinha medo da figura presidencial na tevê em preto-e-branco.  E conforme os anos iam passando, na minha cabecinha infantil, o pavor só aumentava.  Entre os rescaldos da Crise dos Mísseis Cubanos, todo aquele sisudo conservadorismo me deixava tenso.  Tinha medo do meu pai ser chamado para uma possível guerra, já que isso era um assunto muito comum nas reuniões familiares.  E mesmo com o assunto sendo tocado com muito comedimento, eu percebia através dos meus pequenos olhos brilhantes.  E eu sentia medo.  Muito medo. 

A única coisa que me deixava mais tranquilo era observar a imagem da igreja da Penha no alto do penhasco.  Ali, diante da varanda da casa da minha avó fiz promessas nunca cumpridas para as luzes amarelas, e me sentia um pouco mais acalentado, como se o monumento fosse um grande talismã.  Mas era só aparecer a imagem de Brezhnev, Nixon e Médici e eu voltava a me desestabilizar.  Com o tempo, outros personagens e fatos surgiram e meus medos foram sendo substituídos:  Ernesto Geisel, Ronald Reagan, Aiatolá Khomeini, Margaret Thatcher, Xá Reza Pahlavi, Osama Bin Laden, Crise do Petróleo, Guerra das Malvinas, Terceira Guerra Mundial, hecatombe nuclear, ameaças químicas e biológicas, AIDS, ebola, césio 137... Tudo novamente junto e misturado... O mesmo universo negativo em expansão após o Big-Bang.

Uma vez, um amigo físico me explicou que até hoje a explosão que originou o universo ainda está se expandindo.  A força de bilhões e bilhões de anos do passado ainda continua no presente e se propaga para o futuro.  Pode ser uma coisa muito louca o que eu vou dizer, mas na minha concepção, todo esse conceito de tempo-espaço parece às vezes, dar voltas, como se todos os acontecimentos fossem cíclicos.  Um eterno looping tal qual a teoria daquele filme sensacional que eu amo, Donnie Darko. Mas porque diachos eu estou aqui, falando sobre isso agora?

Bem, como vocês já devem ter percebido, eu sou meio didático para poder explicar certas coisas.  Ou talvez, essa didática seja irritante para outras pessoas, que podem achar que estou dando uma volta ao mundo, fazendo nariz-de-cera ou não sendo objetivo.  Mas queria que entendessem que a contextualização e as lembranças sempre fizeram parte de meu processo criativo.  As memórias e flashes precisam estar presentes no texto para que tudo possa ter um sentido para mim.  É como se aos poucos eu fosse montando um imenso quebra-cabeças, que se transforma em um exercício.

Essas duas últimas semanas eu fiquei muito incomodado com todo aquele (mais um) bafafá envolvendo aquela criança e a mãe durante uma performance na abertura de uma mostra no Museu de Arte Moderna de São Paulo.  O que mais me irritou foi ver a chuva de comentários nas redes (principalmente no Facebook, que está se especializando em abrigar os maiores ataques de ódio da população) com acusações cruéis de que aquilo era uma incitação ao crime de pedofilia (bem semelhante como a que aconteceu com a exposição Queermuseu, em Porto Alegre).  Mistura-se religião com arte, autoridade com moralismo, nudez com erotismo, erotismo com pornografia, pornografia com crime e por aí vai.  Na mesma linha de pensamento de quem faz a associação de que uma criança tocando o calcanhar de um homem nu é uma incitação à pedofilia, um boicote também pode ser uma incitação à censura.


Para fazer um interlúdio, vou contar outra historinha:  naquela época em que eu era moleque, todos os programas de tevê, antes de serem veiculados, exibiam por alguns segundos um documento datilografado pelo Ministério da Justiça, com o nome da atração e a classificação etária.  Vocês já devem ter percebido que a fiscalização no período obscuro da ditadura era ferrenha.  Havia tantos cortes que, em algumas produções era praticamente inviável a transmissão.  Outras foram completamente vetadas pelo governo, como a primeira versão de Roque Santeiro, em 1975.   

Já na década de 1980, com a abertura política e a luz da democracia no fim do túnel do governo Figueiredo, mesmo com a criação de um Conselho Superior de Censura (sim, acreditem... tinha um órgão para censurar os censores), vetos em criações musicais eram muito frequentes.  Surgiu, então, na primeira metade desta década, uma “defesa da moral e dos bons costumes” acampada pela sociedade que, devido ao alarde, desencadeou um aumento muito grande na censura, principalmente nos programas de tevê, roteiros de novelas e nas artes em geral, como exposições e música.  Por falar nessa última, a censura riscava as faixas dos discos (já pararam pra pensar como isso era uma loucura?).  A Blitz por exemplo, teve faixas proibidas, riscadas à mão pelos censores.  Léo Jaime, com sua versão de Sônia, com versos sobre sexo anal, suruba e masturbação também foi vetado; além do Camisa de Vênus, que em um único álbum teve 8 músicas censuradas e os discos apreendidos pela Polícia Federal.  O primeiro disco do Capital Inicial (por causa de Veraneio Vascaína) também sofreu censura: o LP só podia ser vendido para maiores de 18 anos.  Lobão foi outro exemplo:  a canção Teoria da Relatividade, que falava sobre a relação entre três pessoas, foi proibido; assim como Ultraje a Rigor (por isso acho um absurdo que hoje, Roger Moreira, que teve canções censuradas como Marylou, retorne da tumba defendendo a moral e os bons costumes).  A neurose era tão grande que, mesmo depois da censura ter dissipado (mas nunca ter sido extinta), as rádios tinham um certo receio de tocar algumas canções com medo de serem autuadas pelo Estado.  Faroeste Caboclo, a épica canção da Legião Urbana, era um desses exemplos.  

Mesmo com a “classificação” do Ministério da Justiça, sempre dávamos um jeito de “burlar” o que estávamos a fim de ver.  Eu sempre assisti A Casa do Terror de madrugada, escondido de meus pais.  Acordava lá pela meia-noite e meia e com o auxílio de um cobertor, ocultava a tela da televisão e me escondia por baixo, evitando assim que a claridade do aparelho se espalhasse pela casa.  Também vi, aos 14 anos, os clássicos e impróprios O Império dos Sentidos e Laranja Mecânica; além de toda aquela linha de pornochanchadas nacionais e os impublicáveis filmes de sexo explícito dos cinemas “poeirinha” dos subúrbios.   E não foi por assistir filmes de mortes violentas que me tornei um assassino; ou que, movido pela curiosidade e liberação natural dos níveis de testosterona pelas telas dos cinemas pornôs, me tornei um maníaco sexual.  

Com a Constituição de 1988 e as eleições diretas, começou um “oba-oba” que se espalhou pelo país.  Nesse período, tudo podia.  Tudo mesmo.  Acho que minha geração, tão retraída pelo medo, acabou se acostumando à liberação.  Por isso, acredito que é muito mais fácil para as pessoas da minha faixa de idade se chocarem com as atitudes preconceituosas que estão se espalhando rapidamente.  Vimos o “antes” e o “depois” e certamente temos ainda na memória todo o mal de que nos foi provocado.  Listaria aqui, intermináveis pontos que faziam parte de nosso cotidiano.  Por isso acho que a tal onda de boicotes é o retorno daquele tal eterno looping.  Será que vamos vivenciar aquilo tudo de novo?  Ou será que as coisas podem piorar?  No Museu do Holocausto, em Washington, há uma apavorante placa afixada que serve de alerta sobre os perigos do fascismo.  São 14 itens que tem o objetivo de identificar os primeiros sinais do regime.    E sabe quais são esses sinais?  Empoderamento nacionalista contínuo; desdém por direitos humanos; identificação do inimigo como causa unificadora; supremacia militar; sexismo desenfreado; controle das mídias de massa; obsessão com segurança nacional; governo e religião interligados; poder e direitos corporativistas protegidos; poder e direitos de trabalhadores suprimidos; desdém pelos intelectuais e pelas artes; obsessão por crime e punição; corrupação e nepotismo desenfreado e eleições fraudulentas.

Assustador, não é?  Pois é.  E para terminar, há 80 anos atrás, obras de Mondrian, Matisse, Chagall, Max Ernst, Paul Klee, Kandisnky e quase mais uma centena de artistas que faziam parte de movimentos artísticos como o Cubismo, Bauhaus, Expressionismo, Fauvismo, Impressionismo e Surrealismo foram ridicularizadas na exposição Arte Degenerada, em Munique.  Muitas dessas obras foram queimadas e outras, completamente destruídas pelo organizador da mostra que, taxando os artistas de criminosos e utilizando-se de que a arte ameaçava os valores familiares, transformou a exposição em uma propaganda ideológica.

Ah, e o nome do responsável pela exposição?  Adolf Hitler.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

JULIO CESAR BRITO disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
JULIO CESAR BRITO disse...

Engraçado que até pouquíssimo tempo, ali nos anos 90/2000, existia no horário do almoço de domingo, o programa do Gugu onde várias "celebridades" ficavam de roupa de banho dentro de uma banheira tentando pegar sabonetes. O meu idolatrado grupo "É o Tchan" cantava musicas com versos "ela fez a cobra subir", "de quem é esse peitinho, nega?", "essa menina tá de brincadeira, vai acabar alguém passando a mão", dentre outros. Sem contar a alcunha de "ordinárias" que as dançarinas eram chamadas... tudo isso sendo imitado por crianças por que era muito normal... hoje, as mesmas pessoas que fizeram isso no passado comigo, pois dançávamos nos coretos de carnaval e aniversários infantis, e hoje fazem coisas beeeem piores às escondidas), vomitam o falso moralismo que me embrulha o estômago...Alguns defendem o Temer apenas porque são contra o PT. Preferem no poder um homem que possui a história mais corrupta que tivemos na liderança do país (qualquer comparação com a idolatria a Hittler não é mera coincidência), apenas para seguirem ideologias hipocritas que não levam a lugar algum, apenas ao aprisionamento do próprio povo.