sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Tão Jovens e Tão Cruéis





Na última semana, mais uma vez o assunto bullying voltou aos noticiários com o caso do estudante de 13 anos que matou dois e deixou outros feridos em uma escola particular em Goiânia. O menino, que estudava no 8º ano da escola, decidiu se vingar pela suposta perseguição que sofria pelos amigos por problemas relacionados ao excesso de transpiração: pegou a arma do pai, que é coronel da PM, e abriu fogo contra os colegas de turma.

Desde que eu me entendo de gente, o bullying sempre existiu. Na minha época de colégio, ainda não tinha esse nome. Na verdade, o bullying nem tinha nome. Todos eram zoados e alguns, de forma bem cruel, inclusive. Por ser muito tímido, passei minha adolescência inteira sendo perseguido. Além da timidez, usava uns óculos horríveis, era um magro desajeitado, detestava educação física, meu cabelo era todo desgrenhado de tão encaracolado e meus dentes da frente eram muito separados. Me colocavam apelidos que iam desde “tempo vago” e “quatro-olho” até “cabelo de Bombril” e “olívia-palito”.

Minha família, com poucos recursos, não tinha como me dar dinheiro para o lanche do recreio. Minha mãe preparava um sanduíche de pão-de-forma com queijo para que eu comesse no intervalo das aulas, que era engolido à seco. Envergonhado, enquanto meus amigos desfilavam com seus pães na chapa e mistos-quentes com aquelas “cocacolinhas” de vidro da cantina, eu devorava o meu sanduba secretamente. Até que um dos meninos me pegou comendo escondido no banheiro e passou a me humilhar todos os dias, ridicularizando a minha privação financeira. Eu fingia que não ligava, mas teve um momento que eu não queria mais ir para o colégio por estar cansado de tanta zombaria. Num acesso de fúria, cheguei a quebrar os dentes desse menino enquanto estava distraído sorvendo seu refrigerante. Enfiei a coca-cola quase goela abaixo. Sei que foi uma reação absurda, mas que para mim, naquele momento, se tornara insustentável.

Lembro de outra situação que, por mais imbecil que hoje possa parecer, era o mais temido dos castigos: ter o nome na lista de chamada relacionado ao número 24. E os meninos que tinham o nome começando com a letra L ou M sempre estavam na mira.

O primeiro menino zoado foi o Luis Henrique, no primeiro ano ginasial. Devíamos ter uns 11 anos. Ele era bem branquinho com um cabelo estilo romeuzinho, liso e com uma franja imensa, sempre penteado. Naquele ano, ele era o “24”. E, pelo seu aspecto frágil, virou o “viadinho” do ano. Na sexta-série, o número 24 caiu bem em meu nome. E eu já sabia que estaria fudido. E assim foi, pois tive que aguentar o ano inteiro de humilhações.

Em uma certa vez, uns meninos me cercaram no fim da aula, me bateram, rasgaram minha blusa do colégio e tiraram meu kichute, jogando-o dentro do valão que ficava em frente à escola. Lembro que fui pra casa chorando e ainda apanhei de minha mãe por eu ter permitido que aquilo tivesse acontecido. “Mas com seus irmãos você não é valentão? Então, não venha para casa chorando. Resolva os problemas na rua.”

Minha mãe, protetora do jeito que sempre foi, obviamente tinha falado aquilo da boca pra fora. No dia seguinte já queria fazer barraco na porta do colégio para me defender. Sabia que se ela prosseguisse com essa idéia, seria o cúmulo do mico e aí mesmo que eu seria perseguido até o fim dos tempos. Por isso, disse que eu ia resolver o problema sem a interferência dela. Procurei a diretora, D. Cinira, e expus o fato. Na mesma hora, ela me colocou de frente para todos os meninos que haviam me cercado no dia anterior. Deu frio na barriga, tremi, a voz embargou, gaguejei... Mas apontei um por um como os responsáveis pela agressão. E olha que eu nem estava puto por ter apanhado e por ter meu uniforme rasgado. Eu estava virado no samurai pelo motivo de terem dado um sumiço no meu kichute, que era meu xodó. E os obriguei a comprarem um novo. Não sei se juntaram a mesada, se pediram empresado... Só sei que dois dias depois, pressionados pela diretora, que tinha a fama de ser muito durona, me entregaram um novo e passaram a me respeitar; ou ao menos, me “engolir”. Exceto um: Marco Antonio, o número “23”, que depois do ocorrido, tentou influenciar, sem sucesso, os outros meninos para uma revanche que, felizmente, nunca aconteceu, pois, movido por uma atitude bem adulta de minha parte, o chamei para trocar uma idéia e depois desse papo, selamos a paz. A partir de então, sempre tive a visão de que o diálogo, por mais duro que fosse, era a forma mais tranquila de resolver as diferenças.

No nível médio (ou segundo grau / científico como chamávamos antigamente) tive que inventar uma forma de me defender novamente, pois o bullying era muito mais potente. Mas depois eu conto aqui pra vocês a forma que eu descobri para me livrar dos ataques.

E, bullyng por bullying, zoei muito a Sarah Sheeva (filha da Baby) quando estudávamos juntos. Na época, ela ainda não tinha esse nome e atendia pela singeleza de “Riroca”. Aí já viu, né... Não dava para resistir com a turma do fundão da sala de aula!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Marino disse...

Colocar um apelido no coleguinha é complicado,mesmo que seja meigo... E aí fica a pergunta... Chamar o coleguinha, mesmo que com puro carinho, de "Faustão" (vulgo,gordinho);pouca telha" (vulgo, careca); Tico e Teco (vulgo, gêmeos); gigante (vulgo, baixinho), entre outros, seria bullyng?? É complicado...