sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Urbana Legio Omnia Vincit - A Legião Urbana Vence Tudo




E lá se foram 21 anos da morte de Renato Russo, completados esta última semana.  Se estivesse vivo, seria quase um sessentão.  É estranho, mas de vez em quando fico me perguntando como estariam as pessoas que morreram cedo demais no nosso mundo atual.  Como agiriam Jim Morrisson, Jimmy Hendrix e Janis Joplin, mortos aos 27 anos num corpo de 75?  Será que Kurt Cobain continuaria destruindo guitarras e nossos tímpanos com 50 anos?  John Lennon, quase octagenário, estaria ainda promovendo a paz num mundo entre o ditador Kim Jong-Um e Donald Trump? E Michael Jackson, aos 60, ainda seria um vovô com o espírito de Peter Pan na sua Terra do Nunca?

É tão estranho / Os bons morrem jovens /  Assim parece ser / Quando me lembro de você...”  Esse é o trecho da canção Love in the Afternoon, composta por Renato Russo, presente no disco O Descobrimento do Brasil, da Legião Urbana.  Isso foi em 1993, três anos antes de sua morte.  Quando gravou esse sexto álbum de estúdio, Renato, que tinha iniciado um tratamento para se livrar da dependência química, certamente já sabia que estava doente.  Naquela época, ter o vírus da AIDS era a mesma coisa do que assinar a sentença de morte, que vinha antecipada.  Cazuza, outro talento que morreu devido às complicações da doença já tinha dito que havia visto “a cara da morte e ela estava viva”.  E nessa onda perdemos tantos e tantos talentos...

Renato, que nasceu com o sobrenome Manfredini Júnior, adotou o “Russo” em homenagem aos filósofos Bertand Russell e Jean-Jacques Rousseau e o pintor pós-impressionista Henri Rousseau, antes de montar a Legião Urbana (talvez um dos grupos mais populares da história do rock nacional), também integrou o seminal Aborto Elétrico, de onde surgiu o Capital Inicial e a Plebe Rude e fez parte da Turma da Colina, movimento de bandas brasilienses onde um certo Bi Ribeiro e um tal Herbert Viana se conheceram e formaram o Paralamas do Sucesso.

Com a Legião Urbana, Renato Russo se tornou uma espécie de novo messias.  Aliás, tão messiânica quanto a figura do carismático Bono Vox e seu U2, tão presente no som da Legião.  E no caleidoscópio de influências da banda havia o som do pós punk inglês (The Cure / Echo and the Bunnymen); o punk do Clash, Stranglers e Sex Pistols; a sinceridade das letras como a dos Smiths; o lado soturno e a dança-epilética do Joy Division, a poesia de Nick Drake (Vento no Litoral é totalmente influenciada pelo cantor); o rock progressivo dos anos 1970; a inspiração operística de Richard Wagner e a folk music de Bob Dylan (talvez sua maior influência).

Apesar de nunca ter assistido um show da Legião Urbana, dei de cara com Renato duas vezes, por acaso: uma vez na Rock it!, a loja do Dado Villa-Lobos no Leblon, e outra vez na Modern Sound, a saudosa  loja de discos em Copacabana, quando troquei umas ideias com ele.  Renato Russo sempre falava sem parar e gesticulava muito.  Era praticamente impossível acompanhar sua linha de raciocínio que ia desde histórias em quadrinhos, passava pela literatura, música, fanzines e política.  

Por falar em política, em várias de suas canções há críticas sobre esse tema, obviamente influenciado pelo punk (Geração Coca-Cola, Tempo Perdido, Que País é esse, 1965 – duas tribos), outras menos óbvias, disfarçadas (Metal contra as nuvens, com os versos “Quase acreditei na sua promessa / E o que vejo é fome e destruição / Perdi a minha sela e a minha espada / Perdi o meu castelo e minha princesa”; Teatro dos Vampiros – “vamos sair / mas não temos mais dinheiro / os meus amigos todos estão procurando emprego / voltamos a viver como há dez anos atrás / e a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”; Índios – “quem me dera ao menos uma vez / explicar o que ninguém consegue entender / que o que aconteceu ainda está por vir / e o futuro não é mais como era antigamente”; Andrea Doria – “às vezes parecia que era só improvisar / e o mundo então seria um livro aberto / até chegar o dia em que tentamos ter demais / vendendo fácil o que não tinha preço”.  Mas, de modo geral, Renato tinha um discurso otimista.  Mesmo com todas as críticas que permeavam as músicas, ele dava um jeito de incluir um verso acreditando em dias melhores.  No fim de 1965 – duas tribos, diante da crítica político-social da letra retratando a tortura e morte de jovens, ele brada aos quatro cantos “O Brasil é o país do futuro / em toda e qualquer situação / eu quero tudo pra cima”, assim como em Tempo PerdidoO que foi escondido / É o que se escondeu / E o que foi prometido / Ninguém prometeu / Nem foi tempo perdido / Somos tão jovens... tão Jovens!”.


Perfeição, um perfeito manifesto à história política brasileira, gravado no disco de 1993, e que parece ter sido escrita hoje pela manhã, tem a mesma visão esperançosa.  Em praticamente toda a canção, os cruéis versos retratam uma situação que conhecemos muito bem... “Vamos celebrar a estupidez humana / A estupidez de todas as nações / O meu país e sua corja de assassinos / Covardes, estupradores e ladrões / Vamos celebrar a estupidez do povo / Nossa polícia e televisão / Vamos celebrar nosso governo / E nosso Estado, que não é nação / Celebrar a juventude sem escola / As crianças mortas / Celebrar nossa desunião”, para no final, deixar uma mensagem confiante: “venha, o amor tem sempre a porta aberta / e vem chegando a primavera - nosso futuro recomeça: venha, que o que vem é perfeição!

No último disco da Legião Urbana, chamado A Tempestade – ou o Livro dos Dias, a maioria das músicas retrata situações bem tristes e em praticamente todas as faixas, só existe a voz guia de Renato Russo, que não quis (ou não conseguiu, por estar debilitado) gravar as vozes definitivas.  A única exceção é a A Via Láctea, que chegou a tocar bastante nas rádios, como uma bucólica despedida, melancólica e ao mesmo tempo, com uns lampejos resignados: “Quando tudo está perdido / Sempre existe um caminho / Quando tudo está perdido / Sempre existe uma luz / Mas não me diga isso / Hoje a tristeza não é passageira / Hoje fiquei com febre a tarde inteira / E quando chegar a noite / Cada estrela parecerá uma lágrima (...) E essa febre que não passa / E meu sorriso sem graça / Não me dê atenção / Mas obrigado por pensar em mim”.

Na contracapa, as frases que sempre eram incluídas nos discos anteriores - "Urbana Legio Omnia Vincit" (A Legião Urbana vence tudo) e "Ouça no Volume Máximo", está uma frase de Oswald de Andrade: "O Brasil é uma República Federativa cheia de árvores e gente dizendo adeus".

Em 11 de outubro de 1996, menos de 1 mês após lançar A Tempestade, Renato Russo morreu em sua casa, no Rio de Janeiro.  E mesmo desejando morrer, deprimido por causa da doença, tenho a certeza de que sempre acreditou em um país melhor.  Talvez, se estivesse vivo hoje, mesmo com todo o caos, ainda estaria acreditando que as coisas poderiam mudar.

Urbana Legio Omnia Vincit.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Antenor Oliveira disse...

Uma.narrativa inteligente sobre Renato Russo. A cada frase criei uma imagem que esta relacionada a memoria afetiva de tempos que nao foram perdidos. Estão brilhantemente descritos nessa coluna sempre espcial. Aplausos Marcos Araújo!

JULIO CESAR BRITO disse...

Impressionante como voltei no tempo... lembro de ter ouvido sobre a morte do Renato dentro do ônibus (ouvindo os antigos walkmans) indo para a escola. As musicas, são mais atuais que nunca, como se ele previsse o que aconteceria. Ou já acontecia e nunca percebemos? O fato é que o visionário Renato faz muita falta... que bom que temos os Softs abs Mirabels para assistir você e viajarmos no tempo!