quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Venha Ver o Arco-Íris





Havia quase dois anos que não se viam. A última visão que tivera de Vicente foi quando o mesmo partiu de sua casa, de malas cheias. Nunca esquecera aquela tarde e noite de longas súplicas, prantos que beiravam a histeria, humilhações como tentativa de manter o amado. Tudo em vão. Partira em sua camiseta regata branca e o cabelo meticulosamente penteado, como sempre. Ricardo, esgotado em suas possibilidades de argumentar com o amor de sua vida, no chão ficou, molhado, num misto de lágrimas dos dois e suor dele próprio.

- Quanto tempo, meu querido Vicente!

O outro abriu um sorriso entre a barba, sob o mesmo cabelo engenhosamente arrumado:

- Que bom te ver bem, Rick.

Abraçaram-se naquela alameda de paralelepípedos, cheia de ervas daninhas nas junções, de tão mal cuidada. O vento quente e as cinzentas nuvens mostravam que poderia vir uma chuva de verão daquelas a qualquer momento. O perfume ainda era o mesmo e trouxe, junto com ele, memórias afetivas e sexuais quase impronunciáveis.

- Que bom saber que eu pareço estar bem, Vicente. – e apoiou as mãos nos ombros do outro rapaz.
- Não está?
- Eu não disse isso...

Vicente, então, deu de ombros e levantou a sobrancelha. Prosseguiu:

- Que lugar mais estranho que você marcou. O que é isso aqui?
- Um parque, oras. Sei que você não é muito acostumado a vir para essas bandas, mas foi por aqui que eu cresci. Brinquei muito aqui nessa colina. Aqui tem o pôr-do-sol mais lindo que eu já vi.
- Difícil vai ser ver o pôr-do-sol com essa chuva que está chegando...
- Ah, mas dependendo, vai que a gente é brindado com um arco-íris? Aqui eu vi vários já...
- Arco-íris, Rick? – sorriu, meio jocoso, para o outro – Não é que nem pôr-do-sol, que acontece todo dia...
- Como meu amor por você. Não é algo que acontece todo dia...

Vicente fechou o semblante:

- Você sabe que eu fui embora daquela casa te amando. Mas não tive outra escolha.

Ricardo imediatamente trincou os dentes. A junção da mandíbula chegava a pulsar próxima à bochecha. Desviou o olhar por um instante e voltou para o antigo amado:

- E o outro?
- O que tem ele?
- Se matou, enfim?
- Não. Você sabe que não.
- Eu disse. Quem muito anuncia, não faz. Era óbvio que era uma chantagem para você voltar para ele.

Vicente suspirou fundo. Demonstrou ficar vulnerável com o assunto voltando à tona:

- Rick, a gente já falou tanto sobre isso. Conversamos tanto...
- Só eu sei o quanto eu falei, Vicente... falei por horas no dia em que você me deixou. E mais dias a fio por mensagens com você. E mais com os meus amigos, minha família, minha terapeuta... Acabou que eu que tive que fazer terapia, em vez do outro. Olha que ironia!
- Eu não poderia pagar para ver, Rick. Não tinha como carregar essa culpa.
- E a culpa de desistir do amor?

Abaixou os olhos. Uma lágrima caiu na camisa social cinza-claro que trajava. Na sequência, várias outras gotas começaram sobre os dois; dessa vez, vindas das nuvens.

- Vem cá, lá embaixo tem um abrigo. – avisou Ricardo.

Pegou o outro pela mão e correram pela alameda tentando proteger seus pertences, enquanto a chuva engrossava. Por um momento, talvez o único, foram inundados de lembranças boas: das vezes em que pegaram nas mãos um do outro em público, das chuvas que enfrentaram juntos cheios de promessas, dos momentos em que se permitiram serem felizes em público.

Entraram em uma casinha de pedras e cimento escura, com portas e janelas de ferragens, que harmonizava com o restante do parque. Havia um leve cheiro de urina no ar, que denunciava que seus poucos frequentadores nem sempre eram dos mais educados, e uns caixotes de madeira aparentemente esquecidos.

- Ufa, deu para molhar! – comentou Ricardo.
- Pois é.

Miraram-se nos olhos pela primeira vez de forma tão profunda desde aquela curta época em que viveram juntos. Vicente insinuou avançar para um beijo, mas o outro refugou. Pegou, então, na mão de Ricardo e declarou:

- Eu ainda te amo.
- Você fez uma escolha, Vicente. Mudaria ela agora?
- Eu não posso.
- Não pode por quê?! Porque tem que ficar com a fortuna do velho? Porque eu não tinha como te dar uma vida de tanto conforto quanto ele?
- Você não sabe o quanto me ofende quando fala isso...
- Vicente, eu fui destroçado por você. Rastejei aos seus pés, implorei, deixei todo o meu orgulho de lado e você não deu a mínima. Você acha que está na posição de poder se sentir ofendido?
- Eu já te pedi perdão inúmeras vezes.
- E eu nunca aceitei. Porque eu sabia que era isso que você queria: ou o meu perdão para seguir em paz ou a minha raiva para ser mais fácil de nos esquecermos. Você nunca teve o meu perdão nem a minha raiva, Vicente.

O outro voltou a chorar, dessa vez mais intensamente.

- Sabe as únicas coisas que você teve de mim? Amor e saudades. – concluiu Ricardo.
- Me desculpa, por favor.
- Sabe, Vicente? O que mais dói não é lembrar das coisas que fizemos. Claro que dói passar pela pizzaria onde jantamos na noite anterior, na qual você disse que me amava e que nunca iria me abandonar. Dói deitar na cama e lembrar de quanto dormíamos abraçados. Mas o que mais dói foi conviver com as coisas que não fizemos: a viagem para Nova York que planejamos juntos, a sua visita à minha família, a corrida que eu ia fazer e você disse que me esperaria na chegada, o vinho que ficou gelando para bebermos juntos e eu nunca abri...

O rapaz permanecia chorando. Ouviam a chuva forte batendo no casebre e as goteiras que molhavam o seu interior. A água descia pelos paralelepípedos e entravam pela porta, vertendo pelo chão. Ricardo mexeu na bolsa que carregava consigo e, de lá, retirou uma garrafa:

- Nunca abri até hoje, mas trouxe para brindarmos.
- Você tá brincando... é o mesmo vinho?
- Sim. A mesma garrafa. Guardei para o nosso reencontro. Trouxe até umas tacinhas descartáveis.
- Não, Rick, por favor. Para que tornar as coisas mais doloridas?
- Doloridas? Estou sugerindo um brinde à nossa superação. A pior dor já passou. Ao menos para mim...

Entregou as taças a Vicente. Abriu a garrafa e serviu. Pegou uma dose das mãos do antigo amado, enquanto ouviam a chuva cessar lá fora:

- Bordeaux, uma das minhas uvas favoritas. - comentou Ricardo.
- Eu lembro que você me disse isso quando colocou para gelar.
- Tantas outras memórias mais importantes para você ter...

Beberam o primeiro gole. Ficaram um tempo em silêncio, como se estivessem degustando algo na sala de estar de sua antiga casa. Até que Vicente apontou pela janela:

- Olha lá o arco-íris! Eu disse!

Passaram por uma portinhola de ferro e correram para mais próximo da janela. Dali, era possível ter uma vista ampla da Zona Norte da cidade. Sobre ela, um belo arco-íris coloria o céu ainda cinzento.

- Uau. – soltou Vicente.

Ricardo, por trás dele, sentiu de novo aquele perfume. Respirou fundo, segurou a vontade de agarrar o amado ali mesmo e comungar da carne e dos sentimentos como há muito desejava. Bebeu o restante da taça em uma tacada só e se afastou até chegar à mochila novamente.

Vicente só parou de admirar o arco-íris quando ouviu o barulho metálico da portinhola se fechando atrás dele. Nela, Ricardo passou um cadeado e removeu a chave:

- O que você está fazendo, Rick? Abre essa porta.
- Sabe Vicente, logo depois que você me deixou, eu ouvi de um amigo que o luto era o preço do amor. Desde então, eu vivi assim, de luto. Uma situação curiosa: de luto e meio morto ao mesmo tempo...
- Rick, por favor. Parou a brincadeira. Abre a porta!
- Eu perdi você para uma chantagem, Vicente. Você colocou o nosso amor abaixo de uma chantagem barata. Você supostamente poupou o outro de se matar e acabou me matando naquele dia.

Vicente já se desesperava, balançando a porta, em prantos, como quem tenta abrir à força. Ricardo retirou uma corda da bolsa e subiu em um dos caixotes de madeira. Jogou por cima de uma das ferragens que atravessavam o teto.

- Ricardo, o que você vai fazer?! – berrou o outro.
- Chegou a sua vez de viver o luto, Vicente. Você poupou um e matou o outro. Carregue essa culpa sempre consigo.

Diante dos berros e súplicas do rapaz, Ricardo cuidadosamente fez o nó que aprendera na internet, deixando o espaço para que sua cabeça passasse. Encaixou-a no meio e disse, sem emoção:

- Eu te amo, Vicente.

E pulou do caixote.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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3 comentários:

Jujubas e Mirabel disse...

Simplesmente FODA! PH, tú é genial. Sem mais!

Anna Guisoli disse...

Petrificada com o coração na garganta, respirando não mais no automático. P... sem mais.

Joe disse...

QUE CONTO! ESSE FINAL DEIXOU-ME SEM PALAVRAS... CONFESSO QUE DESDE O INÍCIO ESPERAVA UM FINAL MAIS ROMÂNTICO... RSRS