sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Bagulhos Sinistros





Stranger Things, a série lançada em junho do ano passado em mais de 190 países e que ganhou uma estrondosa repercussão, se tornando um fenômeno pop mundial, teve a sua segunda temporada liberada na Netflix no último dia 27/10.  E os fãs, que fizeram uma maratona para assistir os nove episódios de uma vez, só teceram elogios rasgados.  Nas redes, só se falava disso.  Mas, afinal, o que faz Stranger Things ser um sucesso tão estrondoso? 

Criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer, a primeira temporada começava com o intrigante desaparecimento de uma criança na pequena Hawkins, em Indiana.  Certa de que o menino estaria vivo, a mãe, acusada por todos de estar transtornada mentalmente, começa uma busca frenética e, aos poucos, consegue convencer um policial que seu filho está preso em um mundo paralelo cheio de enigmas, monstros terríveis e que existe uma conspiração corporativa por trás de tudo. Paralelamente, os amigos do garoto, ajudados por uma misteriosa menina com poderes paranormais e que atende pelo nome de “Onze” também estão à sua procura.

Não há na história um elemento tão vigoroso que sirva de base para o desenvolvimento de teorias e elocubrações por parte dos fãs, como acontece com Game of Thrones, ou que por anos, perdurou em Lost, por exemplo.  Stranger Things agrada por outros motivos.  É notória a influência de obras clássicas de Stephen King e Steven Spielberg.  Há cenas totalmente inspiradas em Os Goonies (1985), ET, o Extraterrestre e Poltergeist (ambos de 1982), Conta Comigo (1986) e sequências que remetem aos filmes de ficção científica da segunda metade dos anos 1970 como Alien, o 8º Passageiro (1979) e  (1977); aliada à sensacional trilha sonora (Joy Division, New Order, Echo and the Bunnymen, Duran Duran, Oingo Boingo, Clash, Police, Cindy Lauper, Bon Jovi, entre outras pérolas pop) e até no conteúdo que fazem parte do cenário: walkie-talkies, câmeras VHS e Super-8, fliperamas, jogos como o D&D, cartazes de filmes como A Morte do Demônio, Tubarão, O Exterminador do Futuro e Selvagens da Noite e referências à situação política da época (Reagan x Bush), as maquiagens pesadas a la Siouxsie Sioux e os sprays de cabelo que Farraw Fawcett usava na série As Panteras.

Ou seja, Stranger Things (ou Bagulhos Sinistros, como ficou carinhosamente sendo chamada pelos fãs brasileiros) é nostalgia pura, com gostinho de Sessão da Tarde e ataca fundo nossa memória afetiva.  Todas as lembranças gostosas do finalzinho dos anos 1970 e início dos anos 1980 estão lá (vale ressaltar que a série se passa em 1984, com todos aqueles diálogos deliciosos e a inocência perdida de uma geração).

Mas aí você vai perguntar: “mas com tantas referências de 30 anos atrás, como a série também consegue arrebatar os corações dos mais jovens?”  A resposta é simples:  as gerações podem mudar, mas toda aquela aura de mistério por algo que vai além da compreensão humana, aliado ao terror clássico dos mestres Edgar Allan Poe e Howard Phillips Lovecraft que, com seus seres e universos fantásticos, influenciaram gerações desde o século passado, vão continuar influenciando e fascinando as novas e demais gerações no futuro.  Outro ponto importantíssimo é que, numa época em que há uma cultura de ódio se alastrando por todos os lados, Stranger Things resgata elementos que parecem perdidos na contemporaneidade como a união, a amizade e a fé.  E esses três elementos estão muitíssimo bem costurados através do hábil roteiro e das SENSACIONAIS (em maiúsculas mesmo) crianças que fazem parte do elenco que, sem exceção, brilham nos episódios, assim como os adultos (Winona Ryder, que nos brindou com as ótimas atuações em Beetlejuice, de 1988, Edward, Mãos de Tesoura, de 1990, Dracula de Bram Stoker, de 1992, A Casa dos Espíritos, de 1993, e As Bruxas de Salem, de 1996, está maravilhosa.  A série deu um novo gás à sua carreira).

Sem querer dar spoilers, esta nova sequência de episódios (que dizem ter custado em torno de 60 milhões de dólares em produção) traz de volta os Demogorgons e algo muito mais sinistro que vai fazer você arrancar todas as suas unhas.  De quebra, tem novos personagens à trama e o destaque para a presença do ator Sean Astin, que interpreta o namorado bobão de Joyce (Winona Ryder).  Pra quem não se lembra, Sean (que foi o parceiro de Frodo em O Senhor dos Anéis) foi o ator mirim protagonista de Os Goonies e muitas falas de seu personagem tem uma ligação direta com os “bagulhos sinistros” da série.

A segunda temporada está brilhante e, se você foi um dos poucos que ainda não assistiu, corra já e delicie-se com esse entretenimento genial. O “mundo invertido” nunca foi tão assustador e tão divertido ao mesmo tempo!  E preparem-se... O sucesso está tão estrondoso que a terceira temporada já está em fase de produção e especula-se uma quarta!  Histórias mirabolantes é o que não faltam!  

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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