sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Coldplay e o Novo Rock Asséptico




O Coldplay é uma banda estranha.  É uma banda de arena, mas não é um U2.  É uma banda tecnológica, mas não é um Radiohead.  É uma banda carismática, mas não é um Arcade Fire.  É uma banda pop, mas não é um Maroon 5.  Os músicos não são virtuosos:  o guitarrista Jonny Buckland nem chega perto de um The Edge (U2).  O baixista Guy Berryman não tem o talento de um Flea (Red Hot Chilli Peppers).  O baterista Will Champion não tem nem um sopro da pegada de um Dave Grohl.  E o vocalista Chris Martin, apesar de cantar muito bem, não é um rockstar.  Tem aquela carinha de bom moço que faz compras no supermercado, leva os filhos na escola e abre a porta do carro para a esposa.  Não é um Bono Vox, um Anthony Kiedis, um Eddie Vedder.  Não deve ter nunca vomitado em um banheiro sujo de bar.  O único “escandalozinho” foi a separação da atriz (insossa) Gwyneth Paltrow e pela fofoca de que a cantora Rihanna seria o pivô da briga.  Aquela velha tríade sexo-drogas-rock´n´roll passou longe.  Aliás, o Coldplay é a antítese do rock´n´roll.  Mas mesmo assim, ainda é uma boa banda.

Ao analisar a (ótima) turnê A Head Full of Dreams, que recentemente voltou ao Brasil para shows em São Paulo e Porto Alegre (eles já tinham vindo com a mesma turnê em 2016 para shows na capital paulista e no Rio de Janeiro – em um show com recorde de público no Maracanã), o Coldplay parece ser a banda certa para um momento certo.  Pelo que tenho percebido, as pessoas estão muito mais dispersas, pois ninguém presta mais atenção em uma apresentação de um show de rock.  Se o filósofo Bauman estivesse vivo, diria que não só o amor e os relacionamentos se tornaram líquidos... a música também se tornou.  Virou uma coisa asséptica:  não vi ninguém com uma gota de suor na testa após o show deles, em Porto Alegre.  As meninas, com suas maquiagens perfeitas e cabelos alinhados, nem precisaram de retoques: “partiu balada pós Arena do Grêmio!”.

O Coldplay faz um concerto pirotécnico, cheio de luzes, explosões de pozinhos multicoloridos, fogos de artifício e cores, muuuuitas cores.  Nesse sentido, eles “obrigam” o público, a grosso modo, a fazer parte do concerto.  Para todos os presentes, são distribuídas as “xylobands”, umas pulseiras que se acendem e mudam de cor em sincronia com as canções apresentadas no show.  É como uma resposta ao inevitável:  se você não tem como vencer, entregue-se a ele.  A turnê é completamente moldada para atrair a atenção e os olhos em um mundo cada vez mais desinteressado.  Curiosamente, em uma determinada parte do show, isso fica bem evidente:  assim como aconteceu em Sampa, durante a música Charlie Brown, a banda parou de tocar e o vocalista Chris Martin pediu para os fãs guardarem o celular, ao menos naquela canção.  A grande maioria acatou o pedido, mas existem sempre os que possuem a síndrome dos cameramen frustrados.

Pode parecer uma crítica negativa, mas juro que não é.  Saem de cena os punhos cerrados, as mãozinhas em forma de chifrinhos, os desmaios por desidratação, os stages dives e moshes e o corpo exausto, encharcado de suor depois de ficar esmagado na grade.   A única sujeira, mesmo que cuidadosamente "maquiada", são das fotos de divulgação da banda, pois o show até parece ter cheiro de Omo com Pinho Sol.  Ao que tudo indica, o Coldplay é a banda perfeita para um mundo onde o que mais importa é fazer uma selfie para postar no Facebook, receber curtidas no Instagram ou fazer uma sequência infinita, cheia de emoticons no stories.  

Sem desarrumar o cabelo, nem a maquiagem.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

JULIO CESAR BRITO disse...

Ahahahah! Amo o Coldplay (e você sabe o quanto), e vi você me traduzir por completo nessa crônica. Parece me descrever no fragmento " Ao que tudo indica, o Coldplay é a banda perfeita para um mundo onde o que mais importa é fazer uma selfie para postar no Facebook, receber curtidas no Instagram ou fazer uma sequência infinita, cheia de emoticons no stories."... você, como sempre com uma sensibilidade irretocável para suas histórias! Loveiu forever ��❤