quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Mãe!: Uma Grande Alegoria




Já quase saindo de cartaz, em poucas salas de exibição, fui ver no último fim de semana o filme Mãe!, de Darren Aronofsky. Já conhecia o trabalho do diretor, principalmente por Réquiem para um Sonho e Cisne Negro, dois filmes dos quais gostei muito. E tinha grande expectativa: um elenco com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer, um clima que flertava com o terror e o absurdo... Mas, principalmente, o que mais me instigava a ir eram os comentários dos meus amigos que assistiram antes de mim. A grande maioria que dizia ter gostado ou ter sido perturbado era de pessoas com as quais geralmente os meus gostos convergiam.

Pois bem. Não posso dizer que gostei do filme. Mesmo dias após, tenho dúvidas. Mas certamente é um bom filme, extremamente perturbador (o que, por si só, já é um grande mérito). Lembro-me de algumas pessoas, após lerem determinados contos do meu livro Perversão, terem comentado que a inquietação dos assuntos, mesmo que não os agradasse, já valeria a leitura. É mais ou menos isso que penso sobre Mãe!. Gosto é uma coisa; qualidade e objetivos atingidos é outra.

O filme tem praticamente duas partes: a primeira, mais envolvente e instigante, na qual tentamos entender a relação da protagonista (Jennifer Lawrence) com a casa que ela reconstrói para o seu amado (Javier Bardem) após um grande incêndio. O personagem de Bardem, um grande poeta, vive uma crise de inspiração e o relacionamento entre ele e a esposa parece se deteriorar. Até a chegada de visitantes estranhos (Ed Harris e Michelle Pfeiffer, essa última a melhor personagem do filme inteiro – provocativa, abusada, sensual na medida e elegante quando tem que ser). 

A segunda parte é extremamente confusa e inquietante. Admito que tive dúvidas em vários momentos se eram verdades, metáforas ou delírios da personagem principal (algo também presente em Cisne Negro). Acho que aí o filme chega a se perder um pouco, mas em nenhum momento deixa o expectador desinteressado: pelo contrário, queremos saber aonde o diretor e roteirista quer chegar.

O próprio Aronofsky admitiu que Mãe! é uma grande alegoria bíblica (não vou dar detalhes para não dar spoiler). Estão lá Deus, Adão, Eva, Caim, Abel, a própria Igreja... Ao mesmo tempo, também enxerguei um grande debate sobre os limites da privacidade e da idolatria ao ego. Será que, no mundo em que vivemos, com tanta exposição, ainda conseguimos ter alguma privacidade, mesmo que enclausurados em uma casa no meio do nada? Será que estamos sãos e salvos mesmo onde nos sentimos seguros?

Sem dúvida, para quem gosta de uma película que faz refletir, vale a pena assistir a Mãe!. As atuações do quarteto principal também são dignas de uma conferida. Mas se você estiver em busca de apenas entretenimento, melhor pular para a opção ao lado.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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