segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Não Me Abandone Jamais





Apesar de ler bastante e ter um gosto bem abrangente, eu normalmente não sou muito afeito aos grandes sucessos de crítica literária. Talvez seja o meu pequeno trauma com os clássicos, que lia obrigado na época do colégio, ou apenas puro preconceito com as obras aclamadas. Só sei que raramente pego um livro muito comentado, mas que não seja comercialzão. Eu sou estranho, me deixem.

Assim, acabei me surpreendendo bastante com Não Me Abandone Jamais (Never Let Me Go, no original), escrito pelo Nobel de Literatura Kazuo Ishiguro, e que ganhei de cortesia da Companhia das Letras. Sabe aquele tipo de livro que você começa a leitura sem saber absolutamente nada sobre ele e, quando se vê, encontra-se perdidamente envolvido por aquele enredo? Foi o que aconteceu aqui, já que recebi o livro, sequer li a sinopse e comecei a leitura. E assim fui sendo levado pelas páginas daquela distopia que vai nos sendo contada pela protagonista Kathy.

Se passando em uma realidade alternativa, somos apresentados à Kathy e aos seus amigos Tommy e Ruth, que vivem em uma sociedade em que existe um grupo de pessoas que são criados para um fim específico que não nos é claro no início da leitura. Esse mesmo grupo também é dividido entre cuidadores e doadores e só vamos descobrindo os seus respectivos papeis na sociedade com o avançar das páginas, assim como os motivos de suas existências assustarem às demais pessoas. Mas isso é apenas uma parte do enredo que acompanha a infância, adolescência e início da idade adulta dos três protagonistas, que foram criados em um lugar chamado Hailsham, na Inglaterra, uma espécie de internato para esse grupo específico de crianças. Assim, quando Kathy está prestes à terminar o seu trabalho de cuidadora e a tornar-se ela própria uma doadora, vai repassando sua vida em retrospecto e vamos, junto com ela, mergulhando em suas lembranças.

Não Me Abandone Jamais não é um livro feliz. Ao contrário, é triste, melancólico e pode até mesmo arrancar lágrimas dos mais sensíveis. É uma história pesada e, como no caso das boas distopias, com grande potencial para ser real, o que acaba sendo um verdadeiro soco em nosso estômago. Afinal, do que é realmente capaz o ser humano? 

Kazuo Ishiguro, que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2017 e também é autor do aclamado e adaptado para o cinema Os Vestígios do Dia, publicou Não Me Abandone Jamais em 2005. Sua escrita é envolvente, fluída e de fácil compreensão. Ele narra as memórias de Kathy de maneira não linear, indo e voltando no tempo, mas sempre prendendo a nossa atenção. E faz isso com maestria. 

O livro, como não poderia deixar de ser, ganhou uma versão cinematográfica em 2010, estrelada por Carey Mulligan, Andrew Garfield e Keira Knightley. Eu, é claro, terminei a leitura do livro e fui atrás do longa, que está disponível na Netflix. E, apesar de um pouco diferente do livro, a adaptação cinematográfica é excelente, apresentando-se como um filmaço.

O que achei legal é que por se tratar de uma mídia diferente, o filme preocupa-se em contar a história de Kazuo Ishiguro, mas de uma forma que reverencia o livro sem necessariamente imitá-lo de forma fidelíssima. É a mesma história, mas que propõe uma experiência diferente aos expectadores. Aqui, o diretor Mark Romanek conta o enredo de maneira linear, apresentando de cara o que são as crianças de Hailsham, e concentrando a trama na história de Kathy, Tommy e Ruth. É um drama poderoso, com personagens bem defendidos pelos atores e uma direção bastante competente, que também nos toca de maneira sensível e impactante. 

No fim das contas, quem se permite embarcar na história desses humanos ímpares e peculiares, não consegue abandoná-los jamais, com o perdão do trocadilho fácil, mesmo depois de encerrada a leitura ou de o filme ter chegado ao seu final. Kathy, Tonmmy e Ruth são marcantes demais para que apenas os esqueçamos e sigamos com nossas vidas.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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