quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Parabéns à Hipocrisia




Eu nunca gostei de "Com quem será?" na hora do parabéns, desde pequeno. Tinha pânico. Já cheguei a fugir em meio às palmas, porque eu sabia que iriam fazer gracinha comigo e a minha prima Marcela. Sempre achei constrangedor, ainda mais naquele momento da vida em que tudo o que a gente queria era apenas ser criança (mas que tanta gente força já uma sexualidade ou uma orientação que sequer existem).

Por isso, na semana passada, quando apareceram os primeiros comentários sobre o vídeo do garoto de 12 anos que beijava seu namorado de 14 na frente de um bolo da Pabllo Vittar, busquei primeiro entender o que e quem estava falando. Concordo inteiramente com quem disse que achava que um rapaz de 12 anos ainda não deveria estar namorando e nem deveria ter isso estimulado pela sociedade. Mas, infelizmente, notei que mais uma vez estávamos rodeados de homofobia e hipocrisia.

Eu não fui alguém precoce nesse sentido. Dei meu primeiro beijo na boca com 17 anos. Mas eu sou um ponto fora da curva. A população brasileira tem perdido a sua virgindade em torno dos 13 anos. Veja bem, virgindade! Não estamos falando de estar namorando. Principalmente os meninos são cobrados de darem esse passo rumo à condição de ser homem. A lógica é totalmente heterossexual e dominante - poucos foram os que se preocuparam, de fato, com a condição pueril dos envolvidos. Duvido que haveria a mesma comoção se ali estivessem um menino e uma menina, sem uma drag queen enfeitando a festa.

Talvez, se fosse meu filho, eu evitaria a exposição, por justamente temer o mundo cruel que vivemos. Talvez eu reclamasse para o "parabéns" numa versão cheia de palavrões e termos chulos (mas que muitos heteros também usam) e que eu acho que não cabe nem numa festa de adultos. Mas eu não sou aquelas crianças e nem os pais delas. E, infelizmente, vemos novamente alguém ser julgado por ser o que não esperam que seja.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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