terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Coisas Que Deixamos Passar Com o Tempo




Um conselho que meu pai me deu certa vez, e que eu adoto até hoje: 
"Já que vai voltar tarde e a pé pra casa, vem caminhando junto com alguém, perto da pessoa, principalmente na hora de atravessar a ponte, porque aí não vai parecer que você tá sozinho."
É um conselho que eu uso bastante na praia também, quando quero ir um pouco mais além da margem; eu vejo se tem gente até onde eu quero ir, e vou indo até lá, devagar, despretensiosamente, a fim de ter certo suporte caso as coisas venham a ficar complicadas. Mas como saber se a pessoa na ponte é apenas mais uma vítima ou se ela pode ser quem vai me assaltar, ou jogar da ponte, ou meter uma bala entre os meus olhos? Como saber se a pessoa que tá mais além na água sabe o que está fazendo, ou se é apenas alguém tentando se aventurar numa parte onde jamais foi, assim como eu?

E aí, gente, como é que ceis tão, hein? Eu tô bem, queimado, morto de cansaço, porque finalmente comecei a aproveitar as praias de Florianópolis, afinal de contas, um calor desses, né?

Sábado é o dia oficial da faxina aqui na casa Alves Damasceno e, como estava sozinho, já que Rafael tinha ido trabalhar e ainda não começamos a dividir o AP com outra pessoa, o que eu fiz? Tasquei meu sonzão e saí varrendo feito alucinado. E então eu pensei: "Caramba, vou tascar um pagodão aqui pra animar!", foi quando eu achei uma playlist e o primeiro artista era o Péricles. Aí abri o CD dele e deixei as músicas rolando, enquanto esfregava o chão da sacada. Foi aí que eu pensei: "Caralho, quanto tempo eu não ouço Péricles! Quando foi que eu parei de ouvir pagode?"

Não que eu fosse O PAGODEIRO, nem nada, mas eu ouvia bem mais, curtia bem mais, frequentava bem mais, inclusive, e quando foi que eu deixei isso passar? Tudo bem, eu sei que nós, seres humanos, somos feitos de fases, de momentos, e que existem momentos em nossas vidas em que passamos a gostar mais de panetone do que de chocotone, ou mais de cueca boxer do que de cueca slip, ou mais de filmes do que de séries, e por aí vai, porém, o que não podemos deixar, ou melhor, o que não podemos permitir, é que essas coisas que nos fazem bem sejam levadas com os ventos do tempo, como eu disse no meu conto de três partes publicado aqui, aqui e aqui

Coisas simples que nos fazem bem e que acabamos deixando de lado devido aos problemas que nos assolam diariamente, como ir ao cinema, seja com alguém ou não, sair pra beber, comer ou coisas do tipo, ou apenas parar para admirar a paisagem da cidade, da praia, de uma trilha, acabam ficando em segundo plano, e você deixa de se divertir, de sorrir com espontaneidade, caindo assim numa rotina horrível de casa-trabalho-casa-Netflix-dormir-trabalho- e assim sucessivamente. 

Outra coisa que me incomoda bastante, e que eu acabei deixando de lado por conta dessa coisa toda de caçar trabalhos e mais trabalhos, é a leitura! Eu AMO ler, mas acabo fazendo isso apenas quando vou pra casa da minha cunhada, que são dois ônibus ida e volta, e mesmo assim, quando volto, tô cansado demais pra ler. Durante a semana eu não faço isso, fico apenas na função de procurar trabalho, pensar no aluguel do próximo mês, beber café, ficar enjoado por causa da quantidade de café ingerida, assistir algum episódio de série ou vídeo das meninas do Depois das Onze e ir dormir. Minha leitura tá totalmente atrasada, eu tô desmotivado demais pra ler, mas quando sento a bunda na poltrona do ônibus e começo a ler, vem aquele frescor, uma sensação deliciosamente conhecida, o prazer de ler, de embarcar numa jornada em busca do assassino que matou seis pessoas e montou um corpo com partes das mesmas.

A gente acaba deixando um tufão de problemas carregar pra sei lá onde as coisas que nos dão prazer, nos fazem felizes, mesmo que pequenas, mesmo que simples. Eu sei que é difícil ir contra a tempestade, e que a ideia de abandonar essas coisas aparentemente fúteis e supérfluas a fim de ter mais concentração e foco pra se livrar desse caos é tentadora, parece prática e sensata, mas a vida não é oito ou oitenta, a gente pode e deve usar as armas que têm, mesmo que a ideia pareça extremamente absurda, mesmo que seja preciso sair da rotina pra conseguir se livrar dos destroços que voam na nossa direção. E quem sabe? Vai ver, numa dessas viradas malucas, você acaba encontrando um abrigo seguro. Numa dessas você acaba se reencontrando, se redescobrindo, e percebe que nunca precisou jogar fora o que amava.

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Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, aparece por aqui toda terça-feira, munido de sarcasmo, mau humor, ironia, café, vinho e cerveja, afinal, ninguém é de ferro. Gosta de passeios na praia e de assistir o pôr-do-sol, enquanto espera Olivia Pope aparecer e recrutá-lo para ser um Gladiador de Terno. Fala umas coisas bonitinhas de vez em quando, mas só de vez em quando!
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