sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Eparrei, Iansã!




Nasci dia 4 de dezembro. Portanto, nesta segunda, completo mais um ano de vida. E, quando era criança, uma das coisas que mais curtia era quando meu aniversário estava chegando. Ficava super ansioso pela festinha que minha mãe preparava com todo cuidado. Mas o que me deixava mais apreensivo, era o possível fato dos convidados não aparecerem. O motivo? A chuva.

Todas as vezes que minha festinha era marcada, o céu desabava. A minha mãe e minha avó sempre diziam que, por ser dia de Santa Bárbara, era obrigatório chover. Mas não era uma chuvinha passageira não... Vinha sempre um dilúvio bíblico, com relâmpagos e trovões estarrecedores. Obviamente, era a clássica “chuva de verão antecipado”, mas na minha cabecinha, sempre achei que era a santa querendo me castigar por algo que eu tivesse feito. Lembro que eu seguia para o meu quarto e, com as mãozinhas juntas, olhava a tempestade cair através da janela de madeira e ficava pedindo perdão por tudo, mesmo sem saber o porquê. Ficava com medo das pessoas não conseguirem chegar a tempo do “apagar das velinhas” e a festa ser um fiasco.

Anos depois, mas ainda um pré-adolescente, li em algum livro que Santa Bárbara havia sido morta por seu próprio pai por se converter ao cristianismo e, após a sua execução, um raio atingiu a cabeça do pai. Eu achava essa história muito sinistra. Paralelamente, busquei entender a relação do sincretismo da santa com as outras religiões africanas. Na umbanda, Iansã sincretizada com Santa Bárbara era a senhora dos espírito dos mortos (ou eguns). No candomblé, também sincretizado, é chamada de Oyá, a orixá que tem o poder de controlar não só os raios, mas também os ventos e tempestades. 

E essa história meio mágica acabava fazendo minha mente criativa pensar que o meu nascimento neste dia estaria vinculado para sempre com esses superpoderes; uma coisa meio X-Men que, aliás, pode até ter mesmo uma relação muito próxima: já repararam que a mutante Tempestade pode ter sido criada com base em Iansã, já que a personagem tem os mesmos poderes de controle dos ventos e raios? Provavelmente, o criador Stan Lee andou dando uma pesquisada no candomblé para o desenvolvimento da personagem, já que o seu nome “real” é Ororo e é uma descendente de uma antiga linhagem real de sacerdotisas africanas. 

E sempre, ano após ano, eu ia para a janela contemplar a tempestade e, com as mãozinhas unidas como símbolo de obediência, rezava para Santa Bárbara, saudava Oyá e Iansã e, depois, tal qual uma mistura de Magneto, Storm e Baby do Brasil, abria as mãos e fazia um “rááá” para afastar as nuvens.

E não é que elas realmente se dissipavam e o sol aparecia? Sempre deu certo. E, na próxima segunda, com tempestade, ou não, a simpatia continua. Parabéns pra mim. Eparrei, Iansã.

*Imagem de Abertura: Por Rafael Olbinski

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Denise dos anjos disse...

Lindo texto, esvoaçador como os ventos de Iansã!

JULIO CESAR BRITO disse...

Essa ancestralidade é muito bem representada no seu comportamento: justo, firme, intempestuoso - por vezes -, mas sempre pronto a resgatar as pessoas (mesmo as desconhecidas), de algum tipo de escuridão!