segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

#Error





Quando foi que a nossa geração começou a dar tilt? E não, essa não é uma pergunta debochada ou irônica, e sim uma curiosidade que me toma. Porque sim, estamos falhando, apresentando tela azul, com mensagens de erro tomando conta do nosso cérebro. O mundo tá estranho e nós somos reflexo do que está acontecendo.

Ainda me lembro de quando era mais novo e ouvir falar que psiquiatras eram médicos de gente maluca. Mas, hoje em dia, quem não precisa de consultas psiquiátricas, usa remédios controlados ou necessita de ajustes de serotonina no organismo? É cada vez mais comum ouvir que pessoas próximas estão ansiosas ou deprimidas, procurando ajuda especializada para aprender a lidar com os dilemas que nos afogam.

Eu mesmo dei tilt esse ano. Apresentei mensagem de erro. Falhei miseravelmente em tentar me manter são enquanto o meu mundo estava revirado de cabeça para baixo. Logo depois do carnaval, imerso em problemas profissionais, de relacionamento e tendo de lidar com incertezas diversas, eu pedi arrego. Tive crise de choro no trabalho, vivia mergulhado em uma tristeza sem motivo, queria apenas dormir e nunca mais acordar. E por isso, orientado por amigos e pessoas próximas bem intencionadas, eu procurei ajuda. Visitei um psiquiatra, que diagnosticou um episódio de depressão e crise de ansiedade. Ciente do problema, fui medicado e, ainda bem, voltei ao meu normal. Não sei até quando, mas estou bem, de verdade.

O que me incomodou durante todo o período em que eu lidava com esse episódio de depressão foi o julgamento alheio. De uma hora pra outra todo mundo arrumou um diploma de medicina e uma residência em psiquiatria e eu ouvi todo tipo de de dica conselho desnecessário e não solicitado. Depressão é coisa de gente com muito tempo livre, Você precisa LUTAR contra isso, É preciso ter fé. Sério, por que as pessoas não podem simplesmente calar a boca?

Lembro de um caso específico, um pouco antes da minha consulta com o psiquiatra, quando em uma reunião com toda a nossa equipe, meu então gerente falou que depressão era uma doença de gente fraca e que era preciso lutar contra ela. Acho que até agora ele tá procurando saber de onde veio o golpe, porque eu só revidei na hora e respondi na frente de toda a gerência chamando-o de equivocado e dono de frases feitas. Feito uma metralhadora giratória, joguei nele, coitado, todo tipo de raiva que vinha contendo, transformando-o no destinatário da minha ira contra a empresa naquele momento. Depois eu pedi desculpas, é claro, mas na hora eu não me contive.

Depois de e por tudo que vivi  nesse período, hoje eu tento ser empático. Vejo pessoas próximas lutando com ansiedade e depressão e o único ~conselho~ que me permito dar é: procure ajuda médica, vai te fazer bem. Porque realmente faz. Um bom psiquiatra conversa com a gente, nos mostra que o problema é pontual, que é possível reverter a situação. Um bom psiquiatra te encaminha e recomenda terapia. Um bom psiquiatra, quando é o caso, receita a medicação necessária. 

E não, você não precisa ser forte, você não tem que ter fé, você não está sofrendo  por ser desocupado. A sua mente está doente, só isso, e precisa ser tratada como qualquer outra parte do seu corpo. Não se culpe, não sofra, não recorra aos deuses ou a entidades superiores. Procure tratamento e tudo vai se ajeitar. Eu posso afirmar com conhecimento de causa. Mesmo.

Fomos educados para sermos os  melhores, os Super-Homens e as Mulheres Maravilhas de uma geração promissora. Mas o mundo está aí dando na nossa cara e mostrando que não, não somos tudo isso que sempre pensamos ser. Muito pelo contrário, a nossa geração é formada por pessoas medíocres, mas com sentimentos de superioridade equivocada. E, quando nos damos conta de que somos apenas mais do mesmo, com o diferencial de termos um pouco mais de acesso a diferentes tipos de conhecimento (e, ter acesso é muito diferente de efetivamente ter o conhecimento), a gente pode dar pane, falhar e precisar de um restart.

O problema é quando isso acontece e continuamos achando que somos grande coisa. Não, não somos. E se você ainda pensa assim, aproveita que vai no psiquiatra e peça para começar a terapia. Vai te fazer bem, muito bem, pode apostar nisso!

Leia Também:
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: