quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Sair dos Armários da Vida




Um dos momentos cruciais na vida de um cidadão LGBT é quando ele sai do armário. Para alguns é algo natural, percebido pela família e amigos desde novo. Para outros, é mais traumático, tendo dificuldades de aceitação. Mas nada é pior do que quando a própria pessoa tem problemas para se reconhecer e se aceitar como é: esse provavelmente é o pior armário onde alguém pode ficar trancado.

Ao longo da vida, somos chamados a sair de diversos armários, sejamos LGBT ou não. Além da questão da sexualidade, quantas outras vezes não temos que nos posicionar e expor uma opinião, temendo o risco de sermos julgados ou rotulados? Acontece com quem convive com HIV, como já mencionei aqui no Barba Feita antes, por exemplo; acontece quando temos que definir uma posição política (alguém consegue imaginar uma pessoa se assumindo petista e abertamente declarando voto em Lula sem ter que ser corajosa hoje em dia para enfrentar as críticas?); acontece quando alguém assume que tem um relacionamento aberto ou poliafetivo. São momentos em que é importante ter certeza e bravura para aceitar opiniões positivas e negativas.

Lembro-me claramente de quando me assumi gay. Eu aceitei para mim mesmo quando tinha 16 anos, depois de uma longa conversa com uma das minhas melhores amigas (minha amiga desde os seis anos de idade). Ela me disse, sem papas na língua, quando estávamos prestes a atravessar a Avenida Roberto Silveira, em Niterói, próximo à esquina da Rua General Pereira da Silva: “Paulo Henrique, você só não é gay porque você não enxerga que é gay”. Aquilo veio como um soco. Fiquei alguns segundos ainda parado, sem dar qualquer passo na faixa de pedestres. Dali, passei a buscar entender o que estava se passando comigo. Comecei a buscar pessoas para conversar na internet e o processo de aceitação foi mais fácil.

É duro quando, em algum momento, você pensa em decepcionar seus pais ou as pessoas que têm orgulho de você. Alguns meses depois dessa conversa, fiquei pela primeira vez com uma menina e, semanas depois, com um menino. A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi contar para a minha irmã, um ano mais nova. Chorei copiosamente, com medo de ser para ela uma decepção, mas ela me acolheu imediatamente. Enfrentamos alguns anos de brigas pós-adolescência, porém nada que mudasse o fato de ela não me enxergar diferente por ser gay.

Minha família, com algum estranhamento em determinados momentos, me deu total apoio para ser quem eu era. Estiveram em meu casamento, acolheram o Cristiano, companheiro de 13 anos de vida, como sendo da família sem qualquer diferenciação. Hoje, me vejo às voltas de um novo momento em que minha família compreende minha essência e não busca julgar quem sou ou o que imagino para a minha vida.

Ao longo da vida, somos chamados a sair de diversos armários. Estou num desses momentos, em que é preciso não temer críticas e saber dosar exatamente a exposição de quem sou. E você, já parou para pensar de quantos armários já saiu na sua vida?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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