quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Danuza Leão, a Avó Maluca





Ter um espaço para escrever o que pensamos é perigoso. Primeiro para quem se habilita a refletir sobre a vida e, a partir disso, disponibilizar suas reflexões de maneira pública. Deixar que os outros revistem seus pensamentos, reflexões e opiniões é corajoso. Também um pouco egocêntrico, se assim posso adjetivar. Jogar ao mundo o que se pensa, dos assuntos triviais aos mais delicados, existe um certo... exibicionismo envolvido. Tem mais relação de dizer ao outro o que se pensa do que debater certo assunto.

O que acontece após a leitura de um texto crônica é uma crítica automática - positiva ou negativa, não importa. É uma crítica - e, com ela, a opinião reversa. Se você acha A, muito provavelmente fulano acredita em B e quer, não só contra-atacar o que foi escrito por você defendendo sua visão de A, mas também promover B, que é o que ele possui e entende como verdade. Imaginar que nem A e nem B estão corretos e que uma versão C possa existir não passa por sua cabeça. 

O mesmo rola com quem já não regula mais com a idade que está "mandando" no pedaço. Gerando debates, listas dos Buzzfeed, textão no Facebook e campanha no Avaaz. A idade que problematiza tudo e, se não tem problematização para fazer, problematiza isso. Eu não sou dessa geração e nem da anterior a essa. Mas posso pensar que estava ali, no embrião disso tudo acontecer. Sou da época em que admirávamos todos os jovens que foram para as ruas lutar por nossos direitos. Que foram perseguidos por acreditarem que arte e cultura não mereciam (continuam não merecendo) censura. O que antes, na minha época, era um certo saudosismo porque não tínhamos "como fazer" nada efetivamente, hoje vira certo gosto agridoce. Afinal, os jovens de hoje possuem ferramentas e causas (essas até inesgotáveis) para lutar, reclamar e bater o pé.

A opinião de Danuza Leão sobre o protesto no Globo de Ouro, por exemplo, recebeu resposta de seus familiares, mais precisamente seus netos. Com uma imagem postada em suas redes sociais, mais precisamente o Instagram, eles disseram qual "lado" possuem nessa história, não sendo da própria família. Enquanto Danuza não "entende" o que é assédio ou como mulheres podem querer sair de suas casas e não receber olhadas, cantadas e seus muitos derivados, seus netos simplesmente postaram uma foto com o dizer: Minha Vó Tá Maluca.

João Wainer e Rita Wainer não fizeram textão. Com essa imagem se posicionaram e fizeram uma galera entender que o problema é de geração. Danuza vem de uma época de liberdade, em que a postura do homem era moldada para ser uma e da mulher outra. Outra década. Outro século. Outra mentalidade. Talvez ela não consiga mesmo entender tudo o que separou sua geração das demais. Do que somos (como organismo de sociedade "social", dentro das redes... sociais). Mas se Danuza não consegue perceber os problemas, seus netos conseguem. E mostram que a mesma liberdade que a avó recebeu para escrever o que pensava, eles também possuem. Podendo discordar e não ter problema algum. 

A segunda grande questão sobre o perigo de se escrever o que se pensa é essa: Nem sempre estamos preparados para lidar com opiniões próximas que são oposta ao que encaramos de vida e verdade. Saber que um desconhecido não concorda com você é uma coisa, mas perceber que seus familiares, também então contrários ao que você acredita ou defende não é fácil. Talvez por isso que fazemos dos nossos amigos nossa família. Aquela que escolhemos... E não faz papel de maluca (só às vezes).

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Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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