segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome ou O Dia em Que Eu Transbordei no Sala de Cinema





Apesar de não parecer, eu sou uma manteiga derretida para algumas coisas. Levo a vida de maneira prática, não sou dado a muitos dramas e, segundo alguns, posso até mesmo ser considerado um pouco frio. Entretanto, sou do tipo que, eventualmente, chora lendo livro, chora assistindo filme e, algumas vezes, chora mais ainda vendo um filme baseado em um livro que já havia me feito chorar. Acho que sou levado pelas boas histórias e, se algo me toca, me permito sentir e me emocionar.

O motivo dessa introdução? Porque foi de cara inchada, olhos vermelhos e rosto banhado em lágrimas que saí da sessão de Me Chame Pelo Seu Nome (Call Me By Your Nome, no original) na semana passada. Apesar de curioso pelo filme, uma quase unanimidade de público e crítica, eu não esperava ser surpreendido e tocado da maneira que fui por aquela história. E ela ainda reverbera em mim e em meus pensamentos. 

Dirigido por Luca Gadagnino, Me Chame Pelo Seu Nome se passa no verão italiano de 1983, quando Oliver, um acadêmico americano, chega à uma cidade não identificada ao Norte da Itália e muda a rotina da família do adolescente Elio, acostumado a, todo ano, ceder seu quarto a um forasteiro que vem ajudar o seu pai em assuntos acadêmicos. O que ambos, Oliver e Elio, não esperavam, era como a relação entre eles se desenrolaria. É uma sinopse simples, mas basta para quem ainda não assistiu ao filme, principalmente porque ser surpreendido e se emocionar sabendo bem pouco da história é o ideal.

Poesia. Acho que essa é a melhor palavra para definir o filme. Com locações em paisagens arrebatadoras, você tem uma vontade incontrolável de estar na Itália, um país pelo qual tenho uma verdadeira paixão, vivendo aquele verão com os personagens. A fotografia é deslumbrante e, a cada cena, você vai se familiarizando com a geografia da região, com as cores e a vibração que parecem transcender à tela grande. Tudo é lindo, tudo funciona, tudo é pensado para ser perfeito em Me Chame Pelo Seu Nome. E é.

Isso sem falar nas atuações primorosas vistas no longa. Parece que o diretor Luca Gadagnino escolheu a dedo cada ator para dar vida aos personagens. E, antes de falar dos protagonistas, preciso destacar os trabalhos de Amira Casar e Michael Stuhlbarg, que vivem os pais de Elio. O casal Perlman emociona e parece até mesmo abraçar aos espectadores, fazendo-nos desejar conhecê-los. E, uma da cena mais emocionante do filme é vivida entre pai e filho, com Michael Stuhlbarg e Timothée Chalamet dando um verdadeiro banho de atuação. Só sei que sai do cinema com a sensação de que o mundo seria um lugar muito melhor se todos os pais e mães fossem um pouquinhos como os pais de Elio.

E chegamos a Timothée Chalamet e Armie Hammer. Os protagonistas do filme são maravilhosos, enchendo a tela de vida e sentimentos, nos convencendo a embarcar na história dos seus personagens e nos fazendo vibrar e torcer por eles. Oliver e Elio tem química e ela é elevada à décima potência pela ótica do diretor Gadagnino. 

Mas, um ponto é inegável: o filme é, sem sombra de dúvidas, de Timothée Chalamet, que vive Elio. A câmera de Guadagnino parece apaixonada por ele, assim como nós vamos ficando no decorrer do longa. O ator entrega-se de corpo e alma ao papel, ao ponto de acreditarmos piamente na existência de Elio e de tudo que ele viveu naquele verão italiano de 1983. Fora as cenas finais, que são de uma poesia, perfeição e intensidade, tornando-se impossível ficarmos imunes a elas.

Aclamado por público e crítica, Me Chame Pelo Seu Nome foi indicado na semana passada a quatro Oscars para a cerimônia de 2018: Melhor Filme, Melhor Diretor (para Luca Gadagnino), Melhor Ator (para Timothée Chalamet) e Melhor Canção Original (Mystery of Love, de Sufjan Stevens). Todas merecidíssimas e que já contam um pouco com a minha torcida. 

Penso agora no momento em que o filme acabou, enquanto os créditos eram apresentados na tela e eu estava lá, sentado e ainda impactado com o que assisti, com o rosto banhado em lágrimas enquanto mantinha um sorriso no rosto. Eu me emocionei sim, eu vivi uma experiência, eu me deixei levar por aquela história. Mas, olhando em retrospecto, eu consigo entender bem o que aconteceu comigo ao assistir ao longa:eu não chorei; eu apenas transbordei.

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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