sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Outro Lado da História




Eu não acompanho mais novelas desde 2012, ano em que Avenida Brasil, do João Emanuel Carneiro, terminou.  Lembro que saía às pressas do trabalho para chegar em casa a tempo para acompanhar a frenética perseguição entre as personagens de Carminha (Adriana Esteves) e Nina / Rita (Débora Falabella), que fez um sucesso tão estrondoso que acabou se tornando a novela mais rentável da história, tendo seus direitos de exibição licenciados para mais de 130 países.

Depois disso, acompanho esporadicamente os capítulos de algumas novelas.  Cheguei até a assistir bastante coisa de A Força do Querer, de Glória Perez, que tinha um enredo bem interessante, um elenco caprichado e diálogos que prendiam a atenção do telespectador.   A trama que abordava o universo da transexualidade, vivida pela personagem Ivana, da então estreante Carol Duarte, foi tratado por um prisma muito rico, recheado de conflitos muito reais e uma singeleza poucas vezes vista na tevê brasileira. 

Nesse período, acabei casualmente participando do lançamento de um livro chamado Vidas Trans, que relatava a luta de transgêneros brasileiros e sua busca pelo espaço social.  Pude então conversar com mais calma com os quatro autores - Márcia Rocha, João W. Nery, Amara Moira e Tarso Brant, e me surpreender com suas experiências de vida.  Ali, compreendi o quanto a novela estava sendo essencial para que o assunto pudesse ser discutido com clareza e até com um nível, digamos, didático, já que era algo que a sociedade não conseguia compreender até então.

Já essa semana, me dividindo entre a leitura atrasada de alguns livros e zapeando alguns canais de tevê, me deparei com uma cena da novela O Outro Lado do Paraíso, que está substituindo A Força do Querer.  Já tinha assistido algumas partes do folhetim e, sinceramente, nada me chamou atenção, pois tudo me pareceu um tanto quanto forçado, com personagens estereotipados demais.  A Sophia de Marieta Severo é quase uma madrasta de Cinderela com sede por poder e riqueza e com filhos igualmente estereotipados: Sergio Guizé (que a Globo insiste em transformar em galã) interpreta Gael, um espancador de mulheres; Grazi Massafera é obviamente linda e infeliz no amor; e Juliana Caldas é Estela, a filha rejeitada por ser anã.  História boooooba... Enfim, que me dá preguiça!

Mas, voltando, na cena que me fez parar naquele momento estavam as personagens Adneia (Ana Lucia Torre), mãe de Samuel (Eriberto Leão), um médico homossexual e homofóbico, e Cido (Rafael Zulu), que mantém um romance com o médico.   Já tinha visto algumas cenas isoladas de Samuel (que também é um crossdresser), mas achei tão esquisitas e tão fora de contexto que só conseguia associar aquelas imagens como fotogramas de algum Bloco das Piranhas ou aquela esquete do Didi Mocó e Zacarias dos Trapalhões na clássica paródia de Maria Bethânia.  Juro que fiquei na dúvida se aquilo era para ser engraçado.  E essa semana, ao presenciar a cena dos três, com a mãe superprotetora fazendo uma chantagenzinha emocional para que o filho não saísse de sua casa, tive a certeza que o assunto se transformou em motivo de piada. 

No diálogo constrangedor, Adneia supostamente “aceita o comportamento” de Samuel, mencionando que faria de tudo para que ela não ficasse sozinha.  “Cozinho, lavo roupas, passo.  Se o Samuel quiser continuar usando calcinhas, eu me sacrifico.  Lavo as calcinhas”.  Na boa...  Achei tão caricato e desnecessário que fiquei me perguntando a necessidade daquela cena, ali naquele momento.  Muitos vão dizer que o que estava sendo retratado era o amor incondicional de uma mãe idosa, com seu filhinho mimado.  Outros dirão que é uma característica do autor Walcyr Carrasco, que já tinha apresentado um personagem gay casado com uma mulher, escondendo a condição sexual da família – o afetado Félix, brilhantemente interpretado por Matheus Solano em Amor à Vida.

Mas, se analisarmos, Félix era um personagem que possuía uma elaboração literalmente caricata, que caiu no gosto popular com seus bordões, bem diferente do perfil de Samuel, que ainda carrega o estigma da homofobia em sua construção.  É muito importante que o autor tenha consciência de que vivemos dias difíceis.  Em um país onde mais se mata sua população LGBT (dados apontam 340 mortes com motivação homofóbica em 2016) e onde o ódio às comunidades gays se espalha pelas redes sociais em uma velocidade cada vez maior, é retrógrado e preocupante que um tema tão sensível e que ainda possui uma ferida social aberta seja abordado dessa forma tão jocosa e tão cheia de estereótipos galhofeiros.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcia Marino disse...

Eu acompanho pouco essa novela, mas eu acho que o autor quis retratar foi uma família que mora em uma cidade, Palmas, que não está totalmente, digamos, evoluída com o assunto da homossexualidade. O que me pareceu foi Justamente uma mãe, com seu amor incondicional, fazendo de tudo para não perder o amor de seu filho. Se a história fosse contada no Rio ou São Paulo, talvez, esse enredo estaria fora de contexto. Em se tratando do Tocantins, eu até entendo o que o autor está querendo dizer... Só acho...😉