sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Os Espelhos Negros





Fiquei pensando como eu começaria a minha primeira coluna do ano de 2018... O que falar, ainda mais depois dos meninos terem feito tantos textos bacanas sobre as perspectivas para os próximos 365 dias... Bateu aquela falta de inspiração que volta e meia volta a assombrar qualquer um que precise escrever uma coluna semanal.

A salvação veio depois de uma conversa informal no trabalho quando notaram que eu troquei o meu aparelho de celular. O meu antigo era um iPhonezinho 4S que eu amava. Sim... Eu tenho uma certa dificuldade em me desapegar dos meus celulares... Detesto ter que instalar programas, por mais fáceis que sejam. Tenho pavor de perder os contatos, mesmo sabendo que pode ser realizado uma paridade, que há nuvem para guardar tudo... Enfim, sou um zero à esquerda no que tange às novas tecnologias. 

Paralelamente, comecei a assistir a quarta temporada de Black Mirror na Netflix. Aí, pra quem assiste a série, já sabe do que estou falando, né? Não consigo nem mais dormir. Surtei quando, aleatoriamente, comecei com o episódio Crocodilo, com todo aquele emaranhado de rastreamentos tecnológicos...

No fim daquele episódio, fiquei cerca de meia hora ali, estático. Pode parecer meio irreal toda aquela história, mas, no fundo, no fundo, admitimos que é totalmente possível; ou pior, começamos a refletir e reconhecer que já vivemos em um mundão totalmente composto por espelhos negros.

Charlie Brooker, o criador da série, certa vez explicou para o jornal diário britânico The Guardian que o tal espelho negro é o que encontramos em cada parede da sala ou do quarto, na mesa do trabalho ou na palma da mão... “a tela fria e brilhante de uma TV, de um monitor ou de um smartphone”. E fez a brilhante indagação “se tecnologia é uma droga – e parece ser uma droga – então quais são precisamente, os efeitos colaterais?”.  E é exatamente por isso que a série dá um certo pavor em quem assiste. 

Estamos realmente mergulhados em um mundo totalmente tecnológico, onde somos rastreados o tempo inteiro e bateu aquela saudade de quando era adolescente e o máximo de tecnologia que eu tinha era um Teletrim (ou Bip, como popularmente chamavam). Ele servia somente para enviar pequenos SMS´s. Quando precisávamos falar, tínhamos duas opções: usar o telefone da vizinha (na época era muito raro ter telefone fixo – e hoje em dia, QUEM tem telefone fixo?) ou procurar o orelhão da esquina, que sempre estava com uma fila imensa de pessoas que ficavam de namorico (ainda mais quando estavam dando acesso direto, sem as famosas “fichas” – só quem viveu isso vai entender) e tínhamos que dar um berro para interromper a melação do casal.

Hoje, meu novo telefone tem um iOS que não estava mais sendo aceito no meu antigo e, consequentemente, também não conseguia mais baixar novos apps (nem Candy Crush estava rolando, para meu desespero). Agora tem tuuuuudo: snapchat, 99 taxi, Uber, Cabify, GarageBand, Waze, Google Earth, Scanner, Spotfy bláblábláblábláblá...

O problema é que não durmo mais. Assumo que o espelho negro tomou conta de mim.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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