sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Qual o Tempo de Uma Vida?




Já tinha abordado esse tema algumas vezes aqui mesmo no Barba Feita e isso é algo que realmente me incomoda: a finitude.  É óbvio que todos nós vamos partir um dia, mas falar sobre isso é muito chato, pelo menos para mim.  Fiquei novamente pensando nisso quando a vocalista do The Cranberries foi encontrada morta em um hotel em Londres, no último dia 15, aos 46 anos.  Três dias antes, o guitarrista da banda irlandesa tinha conversado com ela por telefone e ela parecia bem, inclusive planejando uma nova turnê para 2018 e a gravação de um novo álbum.

Óbvio que a morte não manda recado.  Se soubéssemos que ela viria em um determinado horário, todos nós morreríamos antes, de ansiedade.  Por isso ela sempre nos surpreende naqueles momentos mais impróprios, sem tempo para despedidas.  Mesmo que já estejamos com as malas prontas, moribundos em uma cama de hospital, na hora final sempre vai existir aquele gostinho de quero mais.  Sempre queremos extrair tudo o que a vida pode nos oferecer; afinal, faz parte de nós, seres humanos, querer ter mais do que realmente precisamos ter. 
É apenas isto: se você vai ser humano, tem um monte de coisas no pacote: olhos, coração, dias e vida. Mas são os momentos que iluminam tudo.  O tempo que você não nota que está passando... é isso que faz o resto valer.”  
Esta frase foi escrita pelo escritor inglês Neil Gaiman e incluída em uma das histórias em quadrinhos da saga Sandman, proferida pela própria Morte, que tinha uma característica bem diferente do que a maioria das pessoas imagina.  A personagem mais querida pelos leitores da série não era representada pelo icônico esqueleto envolto em farrapos com uma foice na mão.  Nas histórias de Gaiman, Morte era uma neogótica com suas roupinhas de couro que realçavam seu lado sexy, com um ótimo senso de humor e que sabia exatamente qual era o valor da vida.

Valor da vida... Era sobre isso que eu queria refletir um pouco aqui hoje.   Tenho 48 anos, apesar de muita gente acreditar que pareço ter menos.  Com quase meio século, posso afirmar que já vi muita coisa nessa vida.   Já li centenas de livros, milhares de músicas, vivenciei incontáveis sensações e emoções e fui preenchendo meu HD com tudo que eu julgava necessário não querer esquecer.  Nesses fragmentos, estão a textura do pelo de minha cachorra Tuca, a dor lancinante da picada de um marimbondo no jardim da infância, do cheiro da terra molhada provocada pela mangueira, das roupas molhadas pelas inesperadas chuvas de verão, do coração acelerado com o primeiro beijo e da adrenalina em ver seu ídolo se apresentando em um palco... Mesmo com tantas lembranças, ainda quero poder ter tempo suficiente em descobrir mais sensações, ler mais livros e escutar mais músicas.  Afinal, sempre queremos ter mais do que precisamos ter, pois nunca será suficiente.

E quando relembro de tanta coisa, me surpreendo!  Quase 5 décadas se passaram em um piscar de olhos, apesar das sensações ainda estarem tão presentes!  E lamento em ter que admitir que certamente não viverei o dobro de minha idade.  Já vivi tanta coisa, mas a ânsia em querer experimentar mais e mais nunca se esvai.  Como será o Marcos daqui a 24 anos, metade da idade que tenho hoje?  Com 72 anos, rugas, reumatismos, sendo chamado de vovô e com saudades do tempo que os jovens me chamavam de “tio”?  Como será o improvável Marcos daqui a 48 anos, o dobro da idade que tenho hoje e que, num piscar de olhos poderá ter se desmaterializado, antes mesmo de completar 96 anos?

Você já pensou nisso?  Já pensou o quanto temos nos preocupado com questões supérfluas, ranzinzices, mimimis, ódio e incompreensão?  Já repararam que a cada dia, parece que a humanidade (e sim, todos nós aqui incluídos neste exemplo) não temos dado o devido valor ao pequeno intervalo em que passamos aqui?

Dolores O´Riordan tinha planos, mas partiu muito jovem.  Parece ter vivido uma boa vida, apesar de curta.  Certamente, se tivesse uma nova chance, optaria por viver mais o dobro de sua idade.  Num piscar de olhos, tudo se foi.  A Morte, de Sandman, certamente daria um sermão daqueles se fosse questionada sobre a brevidade em sua chegada:  “você viveu o que todo mundo vive.  Uma vida.  Nem mais, nem menos.  O tempo de uma vida”.

Então, façamos desse intervalo algo extraordinário!

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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