quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Que Tiro Foi Esse?





Há poucos dias, um amigo de Minas Gerais me mandou uma mensagem:

- Paulo, você já ouviu “Que tiro foi esse?”. Jojo Toddynho é a nova musa do momento!

Eu ainda não tinha escutado a música e até agora não sei sua letra toda, embora não haja muita complexidade, pelo pouco que conheço. Mas fato é que a música gruda na cabeça (já vi amigos cantarem o refrão no trabalho e família fazer o mesmo em casa) e já tem até uma onda na internet produzindo vídeos brincando com a letra.

Do outro lado (sempre existe um outro lado...) há pessoas criticando a mensagem e a cantora por fazer certa apologia à violência. Quem é carioca e, principalmente, circula nos meios LGBT, sabe que a expressão “que tiro” é uma nova gíria, assim como já surgiram outras no passado, tal como “bolado”, “arrasou”, “lacrou” e, mais recentemente, “pisa menos”. A própria Jojo veio a público dizer que, por ter vivido em comunidades carentes e ter visto a verdadeira violência de perto, nunca exaltaria em sua música; pelo contrário, ela queria dar mais visibilidade à comunidade gay.

Semana passada, vivenciei uma situação de violência em que ouvi a pergunta “que tiro foi esse?” no sentido literal. Havia acabado de passar pela esquina da Rua Visconde de Pirajá com a Rua Farme de Amoedo, em Ipanema. Estava ao telefone, a menos de 30 metros do local, quando ouvi uma saraivada de disparos. Praticamente uns dez tiros seguidos. Houve correria, gente com criança de colo se refugiando. Do outro lado da linha, meu companheiro Cristiano escutou os estampidos e tentou falar comigo, que busquei me abrigar também e fiquei sem sinal de celular. Ou seja, momentos de tensão de todos os lados.

Depois de algum tempo, as pessoas foram socorrer o baleado: um policial à paisana que estava lanchando ali na esquina e reagiu a um assalto que viu acontecer numa loja de celulares, a poucos metros de distância. Foi a primeira vez que presenciei um tiroteio (já havia ouvido um disparo bem próximo no Centro do Rio, mas estava totalmente fora de alcance, diferentemente dessa situação – eu passei em frente à loja de celulares quando provavelmente o assalto estava em curso, dados a distância e o tempo). Quis o destino, por ironia, que logo eu, morador da Zona Norte do Rio, habitué do subúrbio, passasse por essa situação em um dos bairros mais nobres do Rio.

Muito mais do que se incomodar com a suposta apologia, o que gera mais desconforto nisso tudo é a própria Jojo Toddynho: negra, gorda, peituda, funkeira, favelada, sem medo de erguer bandeiras LGBT. 

“Que tiro foi esse?” incita tanto a violência quanto “Bang”, de Anitta: ou seja, não incita .Tem apenas uma menção alegórica a tiro, e não de forma alusiva a um crime. Anitta, ainda que seja uma artista internacionalmente conhecida hoje em dia, o maior ícone de nossa música pop, enfrenta preconceitos. E, olha, ela tem um perfil muito mais aceito socialmente do que Jojo Toddynho. 

Vimos as mesmas tentativas em desqualificar Pabllo Vittar, apelando inclusive para sua voz – que pode não ser o primor da perfeição, mas quantos outros dezenas de artistas desafinam, são fanhos, têm língua presa, têm vícios de linguagem e, ainda assim, são ouvidos e queridos?

É melhor os neo-críticos musicais se acostumarem: não existe volta atrás desse movimento. Em vez de se preocuparem com o tiro de Jojo e os "viados" que ela mesma menciona, deveriam se atentar aos que diariamente são disparados às centenas, talvez aos milhares, pelas suas cidades, tais como os que presenciei em Ipanema. Aí, sim, estarão, de fato, preocupados com a violência.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: