sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A Chama e a Luz do Carnaval





Domingo de carnaval. Saí de casa ansioso para assistir os desfiles das escolas de samba, como faço todos os anos. Enquanto virava a esquina para aguardar o Uber até a estação do metrô, me deparei com uma senhorinha de aproximadamente uns 70 anos. Poderia ter menos do que aparentava ter, ou muito mais devido ao seu rosto muito enrugado e queimado pelo sol. Seus braços, muito frágeis, não pareciam mais ter músculos. Era somente pele e osso. Tentava, com dificuldade, catar uma latinha de cerveja jogado por algum folião não muito preocupado com o meio-ambiente quando, por um momento, seus olhos tão fundos como se fossem crateras, encontraram os meus. Deu um pálido sorriso sem dentes, envergonhada por não ter força suficiente para apanhar a latinha no chão, que, certamente venderia por uns míseros centavos. Imediatamente curvei-me à sua frente e peguei a latinha, sacudindo-a para que o restinho da cerveja não sujasse suas mãos tão desamparadas. Ao tocar o chão, olhei para aquela senhora, que estava quase da minha altura, de tão curvada sua coluna. Reparei que em seus braços também tinham aqueles panos de prato com bainhas de crochê. Perguntei se estava vendendo e ela balançou a cabeça envolta em um lenço. Balbuciou algo incompreensível e depois compreendi que estava atestando a qualidade de seu produto. Perguntei seu nome. “Maria”, ela disse.

Sim, só poderia ter esse nome. Por uma fração de segundo, imaginei a Pietà e sua fronte resignada. Certamente, com uma vida sofrida, caminhava à esmo, sem esperanças, mas sem perder sua dignidade. E entreguei a latinha exatamente no mesmo momento em que ela apresentava até às minhas mãos uns de seus paninhos. Sorri largamente, abri a carteira e lamentei por só ter uma nota de 20 reais. Ela perguntou se eu queria um só e balancei a cabeça, negativamente, mas sem tirar os olhos dela dos meus. Não queria sua mercadoria, mas somente um sorriso. Entreguei a nota e fechei sua mão para que ela aceitasse o que eu tinha ali naquele momento. Sorrimos com os olhos e ela se despediu. Talvez nunca mais a veja. Mas D. Maria nunca mais sairá da minha cabeça.

Segunda de carnaval, 19 horas. Caminho apressado pela General Roca, próximo ao metrô da Saens Pena para o mesmo itinerário do dia anterior. Já estava atrasado para encontrar os amigos quando vejo um garotinho com o olhar perdido sentadinho no meio-fio da rua. Tinha os olhos marejados, fixos em algum ponto perdido no horizonte. Estava completamente atrasado, mas resolvi dar meia-volta. “Está tudo bem?” perguntei ao menino, que se assustou com a minha aproximação. Tinha um dos olhares mais tristes que já havia presenciado. Repeti “está tudo bem?” e uma lágrima rolou. Não podia estar bem. Perguntei seu nome. “Gustavo”, ele disse. Tinha 12 anos, mas a aparência era de uns sete, no máximo. A pele, muito negra, contrastava com os seus olhos, brilhantes e brancos. Soluçando, o pequeno Gustavo explicou que uma mulher havia roubado seu dinheiro que havia arrecadado com a venda de balas, no sinal. Quanto te levaram? “35 reais”

Em seus olhos, a vergonha e o medo não estavam relacionados com o fato de ter perdido sua pequena féria, mas sim, pela inquietação em voltar para casa, em Belford Roxo, sem o seu dinheiro. “Minha mãe disse que eu tinha que vender tudo ou não podia voltar pra casa. Estou com medo dela me bater”. Aquelas palavras vieram como uma faca cravando em meu peito. Só de lembrar, as lágrimas insistem em cair. Em suas pernas, marcas de surras anteriores. Uma criança escrava da própria mãe.

Novamente, na carteira, outra nota de 20 reais. Não gosto de sair com dinheiro na rua. Dei o que tinha e chorei, por uns segundos, ali com aquele menino que, sem saber o que fazer, sorriu com lágrimas. Talvez nunca mais o veja. Mas Gustavo nunca mais sairá da minha cabeça.

Na Sapucaí, assisti a todos os desfiles e especialmente dois deles me fizeram chorar. Exatamente os dois desfiles campeões na avenida: Beija-Flor e Paraiso do Tuiuti; duas escolas de samba tão distintas e com enredos tão necessários. Beija-Flor e seu séquito que mais parece um exército. Quatorze títulos em seu currículo. A agremiação de Nilópolis que mais soube inovar ao longo de sua história, muito por conta de seu maior ícone Joaosinho Trinta, o carnavalesco que revolucionou o carnaval colocando pessoas em carros alegóricos, inventando os esplendores para verticalizar o desfile, o cara que do lixo transformou o luxo. O menino que saiu do Maranhão para ser bailarino no Teatro Municipal e que, sem porte e talento para a dança foi parar num barracão de escola de samba sendo ajudante de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. João foi o responsável pelo antológico desfile Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, de 1989, minha estreia como espectador no Sambódromo. Não ganhou. Perdeu para a Imperatriz com o clássico Liberdade Liberdade, Abre as Asas Sobre Nós; mas aquele desfile cheio de mendigos e a imagem do Cristo censurado com as palavras mesmo proibido, olhai por nós nunca saiu da minha cabeça. 

A Paraiso do Tuiuti, sem nenhum título, só teve a chance de desfilar por três vezes em sua história no grupo especial. Perdeu sua quadra em São Cristóvão e no ano passado quase foi rebaixada e ainda se envolveu no trágico acidente com o último carro alegórico da escola que, desgovernado, feriu dezenas de pessoas e matou uma fotógrafa. Um Davi lutando contra vários Golias.

Duas agremiações que este ano, trouxeram em seus enredos as mazelas da população. A dor, o sofrimento e a angústia. A falência do ensino e do sistema carcerário, a insegurança, a intolerância religiosa, a homofobia, o machismo, a corrupção e a indigesta luta de quem precisa matar um leão por dia para sobreviver. A falta de perspectivas de quem ainda acha que a escravidão nunca acabou. E nunca acabou mesmo.

Quando me deparo com histórias como a de D. Maria, que, desprotegida no fim de sua vida é obrigada a catar latinhas sem ao menos conseguir se abaixar e a do pequeno Gustavo, que tem medo de voltar para a própria casa vejo o quanto esses dois desfiles, que acabaram arrebatando o Sambódromo e os jurados, foram necessários. Estamos com uma ferida aberta, uma espinha na garganta, uma amputação sem anestésicos.

Sim, existiam escolas mais bonitas tecnicamente. Muitos reclamaram pois não gostam de ver a realidade assim, mostrada tão nua e crua refletida em nossos olhos, ainda mais em uma festa em que todos nós queremos é esquecer que problemas existem e curtir até chegar a quarta-feira.

O pensador Victor Hugo tem uma célebre frase que diz que nos olhos dos jovens arde a chama. Nos olhos dos velhos, brilha a luz. E eu vi isso nos olhos dos dois. Talvez nunca mais encontre D. Maria e o Gustavo. Mas gostaria que eles tivessem presenciado a chama e a luz que as duas escolas refletiram nos olhos de tantos espectadores nas arquibancadas.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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3 comentários:

Gabriela de Castro Rocha Ferreira disse...

Caro Marcos,pessoas com a sua sensibilidade, realmente não podem sair com mais do que 20 reais, ou ficarão sem um tostão, pois não faltam Marias e Gustavos pelas ruas do RJ. Espero que sua coluna alcance o número de pessoas suficientes, para mudar um pouco essa realidade. Obrigada por compartilhar Cultura! Abraço! Gabriela

Garoto no coreto disse...

Cara, esse texto me deu um nó na garganta.
Fiquei com vontade de chorar e quase pude estar la na cena vendo a dona Maria.
Fico muito triste quando vejo pessoas em tamanha vulnerabilidade economica, ainda mais idosos.
Obrigado pelo lindo relato.
Bom fim de semana.

Joe disse...

Por esse texto e outros que sempre reservo uns minutinhos do meu dia para acessar o Barba Feita. Lindo texto.