sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Aulinha de Música com Ranço







Estou ficando com preguiça desta nova geração.  Pra ficar mais moderninho e ninguém ficar me chamando de tio, também posso dizer que estou com “ranço (na minha geração, ranço era outra coisa).  Mas, de qualquer forma, velhos e novos leitores vão entender.  Tô até com preguiça ou, vá lá, “ranço” de explicar. 

Na semana passada eu estava batendo papo em uma rodinha de amigos de várias idades.  Os mais jovens estavam idolatrando algumas bandas e artistas atuais e aí eu citei alguns exemplos de referências musicais, visuais e comportamentais como Culture Club, Secos e Molhados e David Bowie.  Fiquei bem embasbacado com a desinformação entre eles, pois praticamente 100% dos jovens nunca tinha ouvido falar nas duas bandas e um deles sequer sabia que Bowie tinha morrido.  Num gesto mais didático e até desesperador, abri o Spotfy e coloquei pra rolar trechos de algumas canções como Karma Chameleon, Do You Really Want to Hurt Me, Miss You Blind, Sangue Latino, Mulher Barriguda, Space Oddity, Ziggy Stardust e Starman.  Ninguém conhecia os hits do Culture Club e a figura de Boy George.  Já com o nosso representante nacional, até reconheceram a voz de Ney Matogrosso, mas nunca imaginaram que Ney, antes de partir em carreira solo e se tornar o astro de renome, era o vocalista que se requebrava com as maquiagens pesadas no Secos e Molhados.  E David Bowie, coitado... Pensaram que tinha plagiado Astronauta de Mármore, aquela versão horrível do Nenhum de Nós (que também confundiram com o Biquini Cavadão).

Um tempo atrás eu já tinha me surpreendido com uma galerinha jovem que nunca tinha ouvido falar dos Pretenders, nunca tinham escutado Back on the Chain Gang! Também nunca tinham ouvido falar no Simple Minds!!!  Como pode um ser humano nunca ter escutado Dont You (Forget About Me)!?  Como assim?  Na época dei um chilique em tom de sermão (olha a coisa de tio, aí) implorando para que eles ouvissem as canções executadas pela geração anterior a deles, pois certamente se surpreenderiam com as referências musicais atuais.

O que mais me intrigou foi a certeza de que minha geração conheceu a anterior.  Quando nasci, os Beatles estavam se dissolvendo.  Mesmo assim, sempre escutei Beatles.  Como também escutei Elvis Presley, The Mamas & the Papas, Simon & Garfunkel, Chuck Berry, Jackson Five, Roberto Carlos, Renato e seus Blue Caps... Ou seja, coisas que nem eram da minha época.  E também tinha aquelas cantoras maravilhosas como Maysa, Emilinha Borba, Ella Fitzgerald, Billie Holiday e a inigualável Dalva de Oliveira, que morreu quando eu ainda era bebê.

E essa semana, navegando pela minha timeline do Facebook, me deparei com os comentários do amigo escritor, tradutor e músico Johann Heyss falando exatamente sobre esse assunto.  A geração que historicamente tem o maior acesso à informação desde que a internet começou a entrar no Brasil, lá pelos idos dos anos 1990, é exatamente a mais débil.  Entenda-se que uso a palavra débil no sentido literal, não-pejorativo (débil quer dizer sem vigor, com pouco empenho, desanimada, que não está na plenitude se sua condição ou potencial).

Segundo Johann:
“...a geração dos anos 60 conhecia e reverenciava os músicos da geração anterior. A geração dos anos 70 conhecia e reverenciava os músicos da geração anterior. A geração dos anos 80 conhecia e reverenciava os músicos da geração anterior. Nos anos 90 começou a dar ruim (quando “aborrecentes” dizendo que David Bowie era cópia de Marilyn Manson e achando que a música eletrônica tinha sido inventada pela geração deles). Então, se a geração atual não sabe quem foram os Smiths, os Beatles, Chuck Berry, existe um problema, e o problema não é das gerações anteriores. Não venham com esse papo de que é normal a geração atual ser completamente ignorante em relação às anteriores, porque não é mesmo.” 
Tenho que concordar com o Johann em todos os sentidos.  Talvez tenhamos que fazer um estudo mais amplo sobre a abrangência das novas mídias e a correlação ao que realmente é assimilado pelas pessoas, sei lá... Só tenho a certeza de que no meu tempo, onde não existia internet, a minha geração não tratava com indiferença as anteriores.  E olha que eu tenho certeza de que não me tornei um tiozinho desatualizado: gosto muito das novidades, daquelas bandas que ninguém nunca ouviu falar e com o ouvido sempre “atento aos sinais” (que está entre aspas para referenciar o tiozão - vovozinho, talvez - Ney Matogrosso na sua turnê com o mesmo nome onde apresentou composições de artistas renomados com uma roupagem nov...

Pera...  Vô explicar não porque tô com ranço.  Procura lá. 


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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Marcio Teles disse...

É estranho a galera de hoje pouco ou nada conhecer das referências que originaram a atual CENA (em maiúsculo porque não sabem, viram ou procuraram nada da música, do cinema, da TV, da literatura e ate da política que se teve antes). Os ditos jovens de hoje são uns preguiçosos (salvo raríssimas exceções) à sua própria história. Desimportam-se daquilo que foi, em detrimento do que é, para não saber o que será. Estava ficando cansativo conviver com essa 'alienação parental' que esaa geração insiste em criar frente às tecnologias que, nesse caso, esta emburrecendo os futuros adultos.