quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Entre Caixas e Lembranças




Mudança foi o tema da minha coluna na semana passada. Mas mudanças não se dão num estalar de dedos ou num piscar de olhos. É um processo. Não seria diferente com a mudança de casa, pela qual eu passo nesse momento. Por mais que tenha um marco determinante (o dia em que se efetivamente dorme na casa nova, que pra mim foi no último domingo), mudar-se é algo que começa muito antes e acaba bem depois do ter as novas chaves em mãos.

Não falo apenas das inúmeras caixas que circulam para lá e para cá, antes mesmo do caminhão vir buscar e muito depois de deixá-las no novo lar. Sim, isso é um ponto importante e enlouquecedor para alguém que tem um alto senso de organização e até um TOC com algumas coisas, como eu. Porém, falo do encontro e do reencontro com parte da nossa história pessoal e afetiva nesse longo “empacota e desempacota”.

É engraçado como nos deparamos com momentos de nossas vidas que, às vezes, sequer dávamos conta de que tínhamos atravessado. Lembrar de cada item que, mesmo após quase nove anos de uso, foi dado por amigos em um chá de panela num já longínquo 2009 é como revisitar essas amizades e aqueles tempos. Tempos em que dava um imenso frio na barriga em sair da casa dos pais e tentar o primeiro passo na vida de casado. De depender única e exclusivamente do seu dinheiro e da sua força de vontade. De se lançar por completo em algo tão desconhecido e, ao mesmo tempo, tão familiar.

Depois veio outra mudança, em 2014 (aliás, aqui tem uma curiosidade pessoal: sempre me mudei após completar cinco anos ou múltiplo de cinco em minha vida – foram cinco anos na primeira casa, cinco anos na segunda, quinze anos na terceira, cinco anos na quarta e, agora, essa é a primeira vez que fiquei quatro anos em uma casa. Não sei o que isso quer dizer, enfim...). Tinha a certeza de que ficaria bastante tempo nesse apartamento do qual saio agora, mas quis o destino que assim não fosse. Uma última conversa com a locadora dele essa semana me fez ter ainda mais certeza de que, sim, era hora de partir para numa nova morada. De qualquer forma, tive muito mais alegrias do que tristezas nesse último imóvel e, nele, ganhamos ainda mais lembranças e acumulamos mais coisas (fisicamente ou afetivamente) que hoje carregamos conosco como parte da nossa história.

Muita coisa foi jogada fora. Coisas que realmente não servem mais e que a gente não se dá conta de que acumula. Pode ser quase uma metáfora para a vida, como falei um pouco no último texto. Pode até dar um apertinho no coração abrir mão de algumas coisas, mas a leveza posterior também é infinita.

Ainda tenho caixas espalhadas pela casa nova. Ainda tentando me encontrar e me adaptar à nova rotina, nova vizinhança, novos caminhos. Mas se tem uma coisa que aprendi quando saí da casa dos meus pais em 2009 é que daqui é sempre para a frente, sem se arrepender.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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