sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Lembranças da Folia








Acho que a primeira lembrança que eu tenho de Carnaval vem dos meus sete anos, quando morava em Nilópolis. Como acontece até hoje, a comunidade do município abraçou por inteiro a Beija-Flor e, talvez por todo aquela paixão exacerbada, eu me tornei um fã da azul e branco da Baixada Fluminense.

Como na maioria das vezes a Beija-Flor desfilava pela madrugada e minha mãe ficava a noite toda assistindo aos desfiles pela TV, eu implorava para que ela me acordasse. Sei que ela ficava com pena de me despertar e que seria até mais fácil inventar uma desculpa qualquer, mesmo comigo fazendo pirraça por ter perdido o desfile. Mas ela sempre me acordava pois éramos movidos pela emoção que a escola era capaz de provocar. 

A primeira imagem foi a do carnaval de 1976, ano de estreia do mago Joaosinho Trinta e do intérprete Neguinho da Beija-Flor. Lembro vagamente das mulatas sambando em cima de carros alegóricos – algo que era inédito até então. E a Beija veio atropelando todas as escolas, quando sagrou-se campeã pela primeira vez. Vale ressaltar que, até então, os campeonatos eram somente divididos entre as quatro grandes: Portela, Salgueiro, Mangueira e Império Serrano. A Beija-Flor era uma escola até então, inofensiva, que vivia subindo e descendo, com enredos ufanistas sobre militarismo e história do Brasil, até que João assumiu o posto de carnavalesco dando um giro de 180 graus na estrutura da agremiação: ao invés de temas da ditadura, a escola chegou surpreendendo a todos com o marginal e polêmico jogo do bicho em Sonhar com Rei dá Leão.

Nos dois anos seguintes (1977 e 1978) o título não saiu de Nilópolis e as outras escolas tiveram que “rebolar”, dando assim, o início daquela certeza de que a hegemonia das “grandes” poderia ser quebrada. Em 1979, o campeonato também foi obtido por uma estreante em títulos: a Mocidade Independente de Padre Miguel, com o sensacional O Descobrimento do Brasil

Mas realmente o desfile que marcou a minha infância foi o de 1980, quando houve um empate entre três escolas: Beija-Flor, Portela e Imperatriz Leopoldinense. Naquela madrugada em que acordei sonolento, fiquei encantado por aquelas imagens gigantes dos elefantes de Joaosinho Trinta com um quê de erotizados na telinha da TV em preto-e-branco. Me imaginei dentro daquele desfile em preto e branco, mas que na minha cabeça era multicolorido. Nunca cheguei e nem quis ver as cores reais daquele momento, que até hoje estão eternizados como a MINHA cor.

E, por mais que digam que o Carnaval está falido e mesmo que não haja incentivo da prefeitura, o Carnaval estará presente e, em algum momento, sempre vai nos surpreender. Seja em um novo carro de DNA, das palhas de Kizomba ou de uma águia que se transforma em Cristo Redentor ou de um mesmo Cristo transformado em mendigo (mesmo que proibido), ou através de um homem voador, ou um Alladin dando rasantes pelas arquibancadas, ou um Marechal Deodoro querendo tocar o céu; ou um eterno mau humor de um Jamelão, de um choro de Dona Zica e uma resignação de uma Dona Neuma, de um novo bailado de uma Maria Helena ou de uma Vilma Nascimento... De um samba no pé de uma nova Maria Lata D´Água.

Assim como a cor do meu desfile imaginário existe até hoje, esses momentos ficarão eternizados nos olhos de quem vai presenciar tudo isso... E temos muita sorte em saber que eles não vão se acabar numa quarta-feira qualquer.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Adarlette Neira disse...

Excelente texto com o estilo natural e fluente do autor. Parabéns pelo nostálgico relato. Abçs.