quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Não Precisa Aceitar, Tolerar ou Militar. Mas Respeite!





“Quer conhecer uma pessoa? Dê poderes a ela”. A frase é antiga e batida. Mas verdadeira e valiosa. As redes sociais deram poder – deram voz – a todo e qualquer tipo de pessoa. E revelou a face mais cruel de muitas delas, escondidas atrás de seus perfis fake ou de uma sensação de que a internet é território sem lei. Eu já havia sofrido algum tipo de ataque virtual (direto ou mesmo indireto, quando pessoas que conheço postam coisas extremamente preconceituosas e parecem ser outras pessoas quando as encontramos ao vivo), mas nada se compara ao que enfrentei na semana passada por ter um relacionamento diferente do que se julga convencional.

Uma coisa que aprendi nesses anos trabalhando com Comunicação é que as redes sociais organizaram a imbecilidade. Se antes era mais fácil os brilhantes intelectos se unirem e refletirem coletivamente, os medíocres ficavam de alguma forma dentro dos seus armários com suas “opiniões” carregadas de preconceito e retrocesso que, muitas vezes, ultrapassa a barreira do crime. Eis que enxergaram nas redes a possibilidade de ter essa tal voz e, mais ainda, encontraram seus bandos – pessoas e comunidades onde seus pensamentos reverberavam e tinham concordância.

O que me deixa ainda mais estarrecido é ver como pode algum LGBT+ demonstrar preconceito e, mais ainda, ódio contra outra pessoa. Será que não aprenderam nada em anos de opressão a não reproduzir mais opressão? Será que não entendem que parte da sociedade os odeia e até deseja a sua morte simplesmente por eles serem quem eles são? Ou melhor, quem nós somos! Será que a única forma de se sentirem inseridos ou “por cima” em uma situação é se agarrar naquilo que você acha que tem o direito de atacar e fazê-lo sem pena? É fazer uma campanha de ódio e intolerância e conclamar outras pessoas para irem lá somente ofender (que foi exatamente o que fizeram)? Foi uma invasão em massa de um exército de haters em uma página chamada Nosso Amor Existe (olha que ironia! Uma página para dar visibilidade a todas as formas de amor, sem rótulos).

Ninguém aqui é obrigado a levantar bandeira alguma; mas é imperativo a nós, LGBT+, termos respeito à bandeira dos outros (que, muitas das vezes, é similar à nossa). Ninguém pede para que você aceite, tolere ou mesmo milite em algo com o qual não concorda; mas que respeite. Que entenda que, por trás daquela bandeira, existem pessoas, sentimentos, sonhos, esperanças. Existem pais, mães, irmãos e amigos que sofrem por tabela; não por seus filhos, irmãos e amigos serem quem são, mas, sim, por vê-los passar por essa situação. 

Houve muita gente legal que saiu em defesa. Gente que eu não conheço e provavelmente nunca conhecerei. Mas que fez questão de se manifestar em meio a tanta lama. O pessoal da página também tentou agir e demonstrar que, por lá, não haveria espaço para a intolerância e a discriminação. Pode ter sido, como também ouvi, jogar pérola aos porcos. Mas quem, como eu, enxergou nessas pérolas um pouco da beleza em meio ao chiqueiro que se instaurou, teve o mínimo de alento na humanidade. Enxergou ainda que valia a pena, sim, exaltar o amor.

Como também ouvi do meu amigo Paulo (figurinha tarimbada aqui nos textos do Barba Feita): “Nunca discutas com um idiota. Ele te arrasta até o nível dele e depois te vence por experiência”. Chegou a hora em que o melhor a fazer foi simplesmente tirar o time de campo. O que não quer dizer que nos recolhemos para entrar no armário de novo. Longe disso! Ver as reações tão retrógradas só demonstram que é preciso iluminar ainda mais a escuridão da ignorância que impera em nossa volta e que cisma em tragar até mesmo quem deveria estar se fazendo luz. 

Como disse outra amiga querida, toda mudança da humanidade através do amor, como foi com Cristo (guardadas as devidas proporções), traz uma reação pela incompreensão, traz traições, traz pedradas, traz suas cruzes. Sair do armário é um caminho sem volta, assim como foi para os imbecis. A gente apanha, cicatriza, se recupera. Mas não dá passo atrás.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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