quarta-feira, 21 de março de 2018

A Morte do Avô e o Sentimento à Sombra




Essa semana vi muita gente celebrando o dia 19 de março, por ser Dia de São José, um dos santos mais queridos na esfera católica. Tenho grande simpatia por ele, admito. Muito longe de algo sagrado, o 19 de março mais emblemático da minha vida foi 16 anos atrás, quando, de madrugada, meu pai recebeu uma ligação. Eu já sabia o que representava aquela chamada e não tardou a vir a confirmação: meu avô paterno havia falecido no hospital, após dias internado.

A morte do meu avô, por si só, seria motivo para lembrar para sempre da data de forma triste. Mas esse mesmo dia teve requintes novelescos: era aniversário do meu então namorado. À época, minha família não sabia da minha sexualidade (somente minha irmã tinha ciência). Tive eu que ir para Itaboraí acompanhar todos os procedimentos fúnebres com meu pai e passei o dia inteiro longe da pessoa que era tão importante para mim e que completava 18 anos exatamente então.

Lembro-me de ter que me afastar no velório para falar com ele, de forma que ninguém ouvisse. A única vez que nos falamos naquele dia. E foi tão estranho que soou como uma despedida. A segunda despedida daquele 19 de março. Considero até hoje a data como o nosso término; ele não estava lá para me consolar pela perda, nem eu estava ao seu lado para celebrar a sua maioridade.

Certamente, naquele dia, a maior tristeza foi a partida do meu avô. Porém, esse é o fluxo natural da vida. Antinatural foi esconder meu sentimento e a pessoa a quem eu o dedicava. Nosso relacionamento já estava fadado a acabar, é fato. Mas poderia ter tido outro caminho naquele momento que não a sombra. Hoje em dia vejo que, se isso tivesse se perpetuado dentro de mim, seria o mais triste daquele fatídico dia 16 anos atrás.

Viver entre se preservar e se esconder é uma corda bamba cruel para quem é LGBT. Quem não é, definitivamente, nunca saberá o que é passar por isso da mesma forma. Nunca.

Como bem disse a cantora Pitty anos atrás: "eu não volto pra cozinha, nem o negro pra senzala, nem o gay pro armário". É bem por aí o recado daquele dia. Acho que anotei bem na memória...

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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