sexta-feira, 23 de março de 2018

A Volta dos Que Não Foram




Quando eu era bem moleque, lá pelos fins dos anos 1970 e 1980, durante o ensino fundamental e o médio, existiam duas disciplinas que, na época, não compreendia muito bem o porquê de sua existência. Quem tem mais de 40 anos deve se lembrar muito bem delas: Educação Moral e Cívica (EMC) e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), que haviam sido incluídas no currículo durante o período da ditadura militar como disciplinas obrigatórias pelo presidente Costa e Silva (criador do AI-5 - para quem não lembra ou não sabe, o mais severo ato institucional, que resultou na perda de mandatos de parlamentares contrários aos militares, intervenções federais e a “legalização” da tortura).

As disciplinas abordavam temas como a importância da família e um ufanismo extremo de amor à pátria, seus símbolos e tradições. Eu achava tudo aquilo uma chatice e, no fundo, era uma forma de intimidação através de um autoritarismo disfarçado. A minha sorte foi que os professores responsáveis eram totalmente rebeldes. No antigo segundo grau (atualmente ensino médio) tive uma professora de OSPB que falava abertamente sobre o uso da maconha e fazia a gente morrer de rir com as histórias sobre a brutalidade das forças armadas dentro das salas de aula. Em uma das suas histórias, ela contava em detalhes, os momentos em que precisou engolir um jornal subversivo para não ser surpreendida pelos agentes. De certo modo, era uma forma mais leve de tratar um assunto tão pesado para jovens em formação. 

Lembro muito bem que, na época, o ensino ocorria em duas fases: a primeira (EMC), impondo uma ética cristã e valores tradicionais de família (papai-mamãe-menino-carrinho-menina-boneca) e a segunda, já OSPB, com alguns conceitos políticos e jurídicos (obviamente, contando só um lado da história). 

Em 1993, o decreto que instituía as disciplinas foi revogado pelo então presidente Itamar Franco e as disciplinas foram integradas à História do Brasil, Filosofia, Cultura Brasileira Contemporânea e Sociologia.

Pois então, 25 anos após a extinção, a Câmara Legislativa do Distrito Federal decidiu trazer a “educação moral e cívica” de volta através de uma lei proposta pelo deputado Raimundo Ribeiro (PPS), que nega que tenha sido inspirada no governo militar e valeria para as redes pública e privada, de educação infantil e ensino fundamental. Para o deputado, alguns pontos poderiam ser ensinados, “como a história da bandeira do Brasil, o hino, bem como a vida de JK”.

Ora bolas... Em um mundo atual cheio de questionamentos sobre o que é ou não é um valor comum, luta por direitos religiosos, raciais, ideológico-comportamentais e de gênero, essa “volta” é um total retrocesso para quem tem total desconhecimento sobre o papel efetivo da escola, onde a intenção é adestrar a juventude com o interesse de uma vigilância ditatorial. 

Em um país onde a corrupção, golpes incessantes contra a população, retirada de direitos dos trabalhadores, saúde precária e desemprego galopante imperam, é totalmente inadmissível uma lei retrógrada como essa ser proposta em um momento tão vergonhoso como a que o Brasil vive. Certamente, a minha professora de Organização Social e Política Brasileira que engolia jornais subversivos para fugir da polícia e que gostava de sorver uma certa substância verde, certamente me ensinou muito mais sobre ser crítico, racional e tolerante. 

Tá complicado viver. 

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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