segunda-feira, 5 de março de 2018

Como é Que Você Fazia Para Passar Vergonha Antes da Internet?





Todo mundo é um pouco idiota. Isso é um grande fato da vida e não há como fugir dele. Você pode ser um puta profissional, alguém gabaritado, inteligente pra caramba, mas em algum momento da sua vida vai dizer ou fazer algo imbecil. Ninguém está imune, fique tranquilo, você não está sozinho. Exatamente por isso, eu nunca me esqueço do que certa vez uma grande amiga me disse:
"Lê, você pode pensar o que quiser, mas falar, não. Guarde o que pode chocar os demais para você ou comente comigo, que vou rir e vai ficar só por isso mesmo." 
Eu aprendi? Mais ou menos, mas foi um conselho muito útil.

O problema dos nossos dias, entretanto, é que a internet está aí, de portas abertas para a idiotice ganhar o mundo. Hoje em dia, qualquer idiota fala as merdas que quer e ainda escreve isso em seus perfis na internet, em comunidades diversas, em comentários em postagens de terceiros. E ainda se acha inteligente, relevante e, pasmem, cheio de razão. E a gente, como fica? Com uma puta de uma vergonha alheia.

Eu tenho insistido nesse assunto por aqui em minhas colunas. Eu já falei sobre a chatice generalizada que toma conta das redes sociais e, há duas semanas, sobre como a SUA opinião não solicitada é uma coisa que você pode usar para enfiar dentro do seu canal anal e apenas lá. Mas o ponto da coluna de hoje é exatamente esse: será que as pessoas não percebem que estão pagando mico, se expondo desnecessariamente, errando feio e rude, passando uma vergonha da porra e continuando a ser imbecis? Parece que não, infelizmente.

Alguns anos atrás (e eu sou dessa época, respeite o tio que quando chegou na internet era tudo coberto de mato!), você podia falar o que quisesse, inclusive porque a sua opinião idiota não iria reverberar. As suas idiotices e sandices causariam um pequeno mal estar nos jantares de família, no encontro com amigos, você seria taxado de babaca, mas o dano seria só esse mesmo. Afinal, quem nunca conheceu um idiota que gostava de passar vergonha ao seu redor?

O problema é que com a internet e com a visibilidade de tudo sendo postado nas redes sociais, é que os imbecis se reconhecem. Que eles estavam entre nós, sempre soubemos, mas não nos dávamos conta de que eram tantos e TÃO idiotas. Talvez por vergonha dos olhares de choque e de censura, talvez por um mínimo de bom senso, as pessoas pensavam os absurdos, se calavam e a vida seguia. Mas com a sensação de proteção que se tem atrás de um teclado e na frente de uma tela fria, as pessoas hoje se sentem à vontade para destilar o que há de pior em si mesmas com a tranquilidade de alguns poucos caracteres e muita imbecilidade. E ganham likes e aplausos de outros imbecis que se reconhecem na idiotice crônica que parece nos assolar.

Embalados pelo "direito de opinião", os comentários racistas se proliferam, a misoginia se expande, a homofobia ganha cada vez mais terreno e a legião de idiotas e imbecis ganha cada vez mais súditos. As pessoas acham bonito e relevante serem escrotas e desagradáveis. Passam uma vergonha absurda, sem se darem conta de que, no fim das contas, o motivo de riso e de constrangimento são na realidade eles mesmos e não aqueles que atacam.

O triste é ver quando a imbecilidade se entranha naqueles que mais deveriam lutar contra ela. São gays homofóbicos e preconceituosos que reproduzem discurso de opressão heteronormativo que não os abraça; são negros racistas, que não se dão conta de que eles mesmos são os alvos que querem atingir; mulheres machistas, que criam seus filhos e, infelizmente, propagam o que há de pior na nossa sociedade que vê as mulheres como menores, servis e objetos. É um bando de gente estúpida que faz eco a tudo aquilo que deveria lutar contra.

Como disse no início da coluna, ninguém é perfeito e todos nós somos um pouco idiotas. Mas desconstruir-se, aprender e mudar deveria ser o maior bem e legado de todo ser humano. Você tem o direito de pensar o que quiser, claro, por mais absurdo e idiota que isso seja. Mas você realmente precisa verbalizar e propagar isso? Se a sua resposta for sim a essa pergunta, eu realmente gostaria de saber: me diz, vai, como é que você fazia para passar vergonha antes da internet?

Porque sim, por mais que você discorde de mim, esteja aí atrás dessa tela doido para me xingar e usar dos mais diversos caracteres para se "defender", não adianta, não tem jeito e eu vou contar um segredo pra você: para enquanto ainda dá tempo. Porque tá feio, muito feio. #FicaDica

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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