sexta-feira, 9 de março de 2018

Deixa Pra Depois Que Eu Resolvo





Semanas atrás, quando estive em Londres, vi uns pequenos protestos sobre o Brexit em frente ao Parlamento e um Big Ben em obras. Ainda não sei se é cedo para saber se a economia britânica será afetada por não fazer mais parte da União Européia. Alguns economistas afirmam que empregos serão eliminados e que a economia do país depende muito do comércio internacional e que quase metade dos bens e serviços exportados pelo Reino Unido tem como o destino final, a União Européia. Podemos perceber que vai ter uma certa queda de braço da UE para atrapalhar a vida dos ingleses, mas, sinceramente, parece que Londres vive dentro de seu próprio mundo da fantasia. 

Não percebi nenhum espectro de crise enquanto estive por lá. Bem diferente do que vi em Paris: como as dezenas de sírios desabrigados e os senegaleses fugindo de policiais com suas mercadorias contrabandeadas.

Em Londres, parece que o Brasil não existe. Não ouvi nem li nos jornais um só comentário sobre nós. É estranho perceber isso, mas não esperava mesmo. Londres tem uma imprensa esquisita, mais calcada naqueles tabloides sensacionalistas.

Apesar do “desglamour” francês, o jornalismo lá parece ser mais crítico. E não somente por causa do ídolo brazuca Neymar no PSG, o Brasil sempre é pauta. Vivemos dando as caras no Le Monde, um dos jornais mais lidos no mundo.

E lá, vi umas críticas ferrenhas em relação à política verde-amarela, que só me fazem ter certeza de que brasileiro é muito lesado mesmo em se tratando de conhecimento político. 

Quando vejo os comentários imbecis de certas pessoas nas redes sociais (que tornaram-se terra de ninguém), percebo que estamos a anos-luz de uma consciência coletiva que seja razoavelmente crítica. Brasileiro não gosta de pensar. Não lê textão e certamente detesta o assunto aqui discutido. É como se fosse aquele velho lema “deixa rolar e a gente resolve lá na frente”... Brasileiro não consegue enxergar o grande circo político que se instaurou. E se criticamos, “ah, somos de esquerda... a esquerda corrupta que afundou o país nos últimos anos”.

A última capa do Le Monde Diplomatique mostra uma charge sensacional da Justiça sendo enforcada em uma praça pública medieval, com brasileiros com camisas de futebol assistindo (e comemorando) a decisão de magistrados de togas, sendo observados por um presidente literalmente alegórico e um sujeito fardado ao fundo (alguém aí acreditou mesmo nessa história de intervenção militar no Rio de Janeiro sem interesses políticos? Pelamordedeus, né? Parem e pensem). E, ainda tem o histriônico pato de Tróia para sintetizar todo o contexto. 

Dois anos atrás eu cantei essa pedra. E disse que quem pagaria o pato seríamos nós. Dito e feito. Enquanto não tivermos senso crítico, nada mudará. Enquanto acharmos que a melhor solução é colocar um novo “macaco Tião” descerebrado e irracional para governar este país, o trem não vai correr pelos trilhos. E vamos continuar sendo chacota para o resto do mundo, que parece enxergar muito mais do que nós mesmos, que envoltos em uma bruma da burrice, vivemos a síndrome da procrastinação dentro de nossa republiqueta.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
FacebookInstagram


Nenhum comentário: