quarta-feira, 7 de março de 2018

La Casa de Papel: o Fetiche do Crime Perfeito





Sempre fui um fã do cinema espanhol. Embora não tenha mergulhado e assistido tanto quanto gostaria, já tive a oportunidade de me deliciar com alguns ao longo da minha vida (muitos do Almodóvar) e é um dos meus centros produtores de filmes favoritos. Lembro-me de um Festival do Rio, se não me engano em 2004, em que teve a mostra Foco Espanha, na qual vi excelentes películas (duas delas com a atriz Monica Cervera, que me encantou à época vivendo uma transexual e uma mulher obcecada pelo seu chefe). 

Muito por isso, e também movido pelo burburinho que surgia na internet brasileira, resolvi encarar La Casa de Papel no Netflix. A primeira tentativa foi quando ainda estava em Belo Horizonte, no Carnaval. Mas admito que, exausto pela viagem e diante de um texto extremamente ágil e desafiador (ainda mais no espanhol de Madrid, que se fala bem rápido), acabei não acompanhando bem e pedi arrego a Morfeu no meio do episódio piloto. Retornando ao Rio de Janeiro, retomei a tentativa desde o início do primeiro capítulo e, pimba, estava totalmente fisgado pela série.

La Casa de Papel traz um dos maiores fetiches da dramaturgia e de muitos dos escritores de ficção: falar de um crime perfeito. Tive essa oportunidade em uma história que escrevi para o meu livro Perversão (mas não posso falar em qual dos contos para não dar spoiler...) e foi extremamente desafiador. Passei mais de um ano pensando em soluções para prosseguir com a narrativa de forma verossímil. Outra produção espanhola que explorou o tema foi uma das que vi no Festival do Rio com a Monica Cervera, Crime Ferpeito (assim mesmo, com P e F trocados). Como o nome denuncia, nem tudo deu certo na perfeição que os envolvidos buscavam e acabou resultando em um dos melhores filmes daquele ano para mim. 

Não é fácil bolar uma história assim e, na proporção de La Casa de Papel, originalmente com 15 episódios de 70 minutos (a Netflix cortou e editou a primeira temporada de forma que nove episódios de 70 minutos se tornassem 13 de cerca de 40 a 50 minutos), certamente foi um trabalho hercúleo. Pelo que li, somente o piloto teve 52 versões antes de se chegar ao que foi ao ar... 

Para quem não conhece a série: oito pessoas com algum tipo de ligação com o crime no passado, cada uma com a sua especialidade, se juntam em um projeto capitaneado por uma mente brilhante autointitulada de Professor (Álvaro Morte). Eles convivem durante semanas em uma casa afastada do mundo na qual recebem orientações do seu mentor para dar um golpe à Casa da Moeda da Espanha de cerca de 2 bilhões de euros. A ideia é que não haja relações pessoais durante toda a empreitada, tanto que eles não conhecem seus nomes, apenas suas alcunhas de cidades: Tóquio (Úrsula Corberó, a narradora, que parece saída de um filme do Tarantino), Nairóbi (Alba Flores, que igualmente parece saída de um filme, mas de Almodóvar), Berlim (Pedro Alonso, que chefia a operação dentro da Casa da Moeda), Moscou (Paco Tous), Denver (Jaime Lorente), Rio (Miguel Herrán), Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García). Nem sempre a regra de manter a impessoalidade funciona, o que vai nos permitir algumas surpresas e emoções ao longo da série... 

Do lado das forças policiais, quem lidera é a inspetora Raquel Murillo (Itziar Ituño), que se mostra quase tão brilhante quanto o Professor, vivendo momentos dignos de gato e rato, nos presenteando com viradas e golpes de mestre a todo o momento. Infelizmente, para mim, o único ponto realmente fraco da série reside na inspetora: ela é um bocado estereotipada como a mulher forte que vive em um meio machista e que demonstra suas fraquezas estilo “mulherzinha” em alguns momentos cruciais. 

Vale muito a pena conferir La Casa de Papel caso você goste de uma história policial bem bolada e eletrizante. É entretenimento dos bons e cheio de qualidades. Permite ao expectador ir do amor ao ódio, da euforia ao choro (principalmente mais para o finzinho da segunda temporada), com determinados personagens e situações. E não se julgue se você torcer também pelos criminosos; é o maior efeito colateral da série.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


Nenhum comentário: