sexta-feira, 16 de março de 2018

Quem Vigia os Vigilantes?





Era para ser mais um indivíduo na estatística dos inúmeros assassinatos que acontecem diariamente. Era para ser mais um dos cidadãos que saem todos os dias para trabalhar e, como em um game na vida real, vão cruzando obstáculos pelas tortuosas ruas e vielas da cidade até novamente repousarem suas cabeças no travesseiro, iniciarem os sonhos intranquilos e passarem de fase para dar continuidade ao jogo. 

Mas, para Marielle Franco, o jogo foi interrompido bruscamente. Game over.

Muita gente só ouviu falar dela após a exposição da mídia, mas para quem não sabe, esta mulher foi uma das vereadoras (em seu primeiro mandato) mais atuantes e que incomodava muita, muita gente...

É muito estranho você acompanhar a pessoa através das redes sociais, ver seus posts, stories e toda sua ideologia, franqueza e coragem e, horas depois saber que, de uma hora para outra, tudo aquilo que você lutou, planejou e acreditou, foi apagado. Virou hipótese depois das piscadas tão bem retratadas pela personagem Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo. 
“A vida é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais...”
Não mataram Marielle por ser mulher. Não a mataram por ser negra. Não a mataram por ser gay. Dói ter que escrever isso... mas de certa forma, estamos acostumados com esse tipo de violência: mataram Marielle por ser a resistência. E isso é o mais assustador de todo o fato. 

Alguém ainda se lembra da juíza Patrícia Acioli, assassinada em Niterói por combater PMs corruptos? Será que daqui a alguns meses toda a sua luta contra a corrupção e a defesa dos direitos humanos cairá em esquecimento?

Segundo um relatório da Anistia Internacional publicado ano passado, o Brasil é o país das Américas onde mais se matam defensores dos direitos humanos e esse relatório aponta o absurdo crescimento da violência nos últimos três anos, desde 2014. Em 2016, o número de mortes aumentou 80%, chegando a duzentos e oitenta um assassinatos. Dá até um frio na barriga tentar atualizar esses dados. 

Um dia antes de ser alvejada, a vereadora mostrou sua indignação quase ingênua nas redes sociais: “quantos mais vão precisar morrer para que esta guerra acabe?”. E após sua morte, o que se viu nas redes sociais foi uma barbárie atrás da outra, que revela o quanto a população é desinformada, medíocre e cruel. “A pior coisa do mundo são os direitos humanos", “quem defende os direitos humanos gosta de bandido", “os assassinos são apenas vítimas da sociedade” eram os mais populares, debochados e patéticos comentários. 

Para quem não sabe diferenciar ou não sabe o que significa, os direitos humanos são os direitos básicos de todos nós. Meus, seus, dos seus filhos, pais, namoradxs, maridos, esposas, parentes. Nesses direitos estão incluídos o direito à vida, à liberdade, à liberdade de expressão, o direito à sua crença religiosa e o direito à educação, saúde e trabalho. Por isso, como um simples exemplo, quando vemos a população não sendo atendida nos hospitais públicos com dignidade ou quando uma criança não consegue uma vaga para estudar em um colégio, podemos afirmar que o seu direito humano está sendo violado.

Em relação aos possíveis crimes, está lá no artigo 11, inciso I: “Todo o homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias a sua defesa”. O problema é que a sociedade quer ser o juiz.

Em um de seus últimos discursos na Câmara, Marielle, que tinha sido nomeada relatora da Comissão para acompanhar a intervenção militar no Rio de Janeiro, citou a frase “quem vigia os vigias!?” presente na HQ Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, ambientada em 1985, época da Guerra Fria e uma iminente guerra nuclear entre EUA e União Soviética e, paralelamente, um assassinato ocorrido em um um grupo de super-heróis cheios de problemas psicológicos. Afinal, a frase “who watches the watchmen!?” (quem vigia os vigilantes!?) transformada em responsabilidade moral questiona o próprio conceito de super-herói.

Obviamente que a vereadora estava usando como referência à origem da frase citada ao questionamento de Platão a Sócrates em A República, sua obra sobre governo e moralidade. Para Platão, “os guardiões irão se proteger deles mesmos”, dentro da falida questão de separação de poderes e em qual esfera prioritária o poder deve estar centralizado.

E o que vemos é exatamente o resultado esmiuçado pelo célebre filósofo: “cada grupo irá então procurar seus interesses devidos e impedir o funcionamento do resto, mantendo o poder absoluto em uma luta constante, logo, longe das mãos de qualquer grupo”.

Ou seja, enquanto cada um olhar pro seu próprio umbigo e defender seus interesses ao invés de pensar coletivamente, vários cidadãos e Marielles infelizmente vão continuar sendo alvos fáceis para um sistema corrupto. 

Ninguém vigia os vigilantes.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

JULIO CESAR BRITO disse...

O que (ainda) me espanta é ver uma sociedade doente dizendo que o partido A ou B é podre, que é de direita ou esquerda (sem sequer saber o que é isso), e esquecendo de ser um "ser humano" e pensar na integridade física do próximo, seja ele político, motorista, homem ou mulher. Enquanto discutem ideologias que os próprios partidos ou políticos que defendem, TODOS os partidos e políticos se corrompem e nos roubam. Tiram nossos direitos. Acorda meu povo! Proteja seu irmão e seu direito de ditar as regras do que você precisa: educação, segurança e saúde públicos de qualidade, e não uma ideologia que está sendo plantada escondendo o que de mais podre há no reino encantado do Brasil... pobres patos manipulados, já dizia a charge... ou diria, seguidores de Hitler tupiniquins? Lendo um pouco sobre o Holocausto percebo que a sociedade está se tornando o exército da intolerância..