sexta-feira, 30 de março de 2018

Você Está Louca, Querida




As redes sociais são um inferno. Mas a gente não consegue mais viver sem elas. Essa semana, eu não poderia deixar de falar aqui sobre a polêmica que envolveu a série O Mecanismo, a Netflix, o pré-candidato Jair Bolsonaro e o sensacional deboche ao parlamentar no Twitter.

Pra começar, O Mecanismo, o lançamento da Netflix, começou a colocar lenha na fogueira. Inspirada nas investigações da Lava-Jato, a série acabou sendo exageradamente dissimulada por atribuir falas e fatos a outros personagens, com o notório objetivo de propagar fake news. Um dos criadores da série, José Padilha, minimizou o debate, explicando que a série é uma crítica ao sistema como um todo e não a um político específico ou qualquer grupo partidário.

Ok. Até pode ser. Mas ficou feio utilizar a icônica frase estancar a sangria, dita durante o processo de impeachment de Dilma Rousseff, na boca do personagem inspirado no ex-presidente Lula. Todo mundo sabe que essa frase (quase um meme) foi proferida pelo senador Romero Jucá (aliado de Temer) em uma conversa grampeada com o ex-presidente da Transpetro, sugerindo um acordo para atravancar os rumos da investigação.

Ainda mais grave foi utilizar um caso absurdo da década de 1990 e fingir de conta que este fato aconteceu mais de 20 anos depois. O caso surreal foi um certo esquema de corrupção que envolvia mais de 600 acusados entre executivos, doleiros, políticos e empreiteiras, que movimentaram mais de 500 bilhões de reais em evasão de divisas. Você pode até estar achando que estou falando da mesma Lava-Jato... mas não... você deve ter esquecido (ou provavelmente nunca ouviu falar), pois foi completamente ignorado no fim do governo FHC. Naquela época havia um juiz (hoje muito famoso) que investigava a operação e o mesmo doleiro Alberto Youssef, muito citado nos jornais nos últimos anos. Quer saber mais? Dá uma googlada em Escândalo do Banestado... Tá tudo lá, explicadinho. 

Todo esse mal-entendido provocou uma revolta nas redes sociais. Estimulados por pessoas públicas, houve uma grande onda de cancelamentos das assinaturas do serviço de streaming, que acusavam a Netflix de manipuladora. Eu vi parte da série e realmente achei bem imbecil no sentido de manipulação dos fatos. Mas não cancelei minha assinatura. Afinal, existem muitas séries bacanérrimas por lá. As pessoas só precisam ter um pouco mais de senso crítico.

Para ganhar um pouco mais de curtidas, Flávio Bolsonaro publicou em seu Twitter pessoal que a Netflix teria interesse em investir em uma série sobre seu pai, o pré-candidato a presidência da República, Jair Bolsonaro. Minutos depois, o perfil oficial da gigante no Brasil deu um passa-fora no parlamentar de forma bem irônica (e sensacional): você está louca, querida.



A vida de Bolsonaro não dá nem uma lauda de roteiro. Entre 1991 e 2017 só aprovou dois projetos como deputado federal com suas pautas conservadoras, retrógradas, machistas e homofóbicas e é réu no STF por apologia ao crime e injúria. E só. Doida de pedra.

As redes sociais são realmente um inferno, mas não conseguimos mais viver sem elas. É por isso que pago a internet. E a Netflix.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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