segunda-feira, 23 de abril de 2018

A Paixão, as Expectativas e Uma Porção de Linhas Aleatórias




Tenho pensado sobre estar apaixonado. Sim, a paixão, ela novamente. Borboletas na barriga, aquele frio na espinha, a euforia e a alegria inerentes ao sentimento. O sorriso bobo e a cabeça na lua. Estar apaixonado é bom, né? Quase sempre. Porque tenho pensado no estar apaixonado, mas não em eu mesmo vivendo tudo isso. Estou leve, tranquilo e de boa. E, sinceramente, está tudo muito bom.

Já falei algumas vezes por aqui que acredito que somos nós que nos permitimos ou não viver o que quer que seja; que há um determinado momento que tomamos a decisão de seguir em frente e cruzar uma linha invisível que nos transporá para um próximo nível de uma situação. O que é válido inclusive quando estamos prestes a viver uma paixão. E eu, particularmente, não tenho nem me questionado sobre querer ou não me apaixonar e foi pensando sobre isso outro dia, casualmente correndo pelo Aterro do Flamengo, que tive o insight para a coluna dessa semana. Estou vivendo, estou me permitindo, estou com a vida sexual bem saudável e movimentada e divertida,  mas nem aí para uma paixão avassaladora, para as tais borboletas na barriga e para o frio na espinha.

Não é que eu  não queira ou pense em nunca mais me apaixonar. Não mesmo. Acho uma delícia estar apaixonado, ser um bobo e completo idiota devido à mil reações químicas que outra pessoa provoca em nosso organismo simplesmente por existir. É gostoso todo o processo de viver uma paixão, se deixarmos de fora os fatores que, na maioria das vezes, podem fazer a experiência ser um martírio, como não ser correspondido, por exemplo.

Entretanto, o que vejo por aí é uma quantidade enorme de pessoas praticamente desesperadas pra viver uma paixão ou, pior, para entrar em um relacionamento. Como se isso fosse uma validação de uma existência bem sucedida e plena, um carimbo de You're a Winner bem grande na testa e na vida. E o problema disso é que por tamanho desespero, considerando cada pessoa um parceiro ou parceira em potencial, a experiência perde a graça e você se torna um escravo do seu objetivo estranho de não ser alguém sozinho no mundo.

Fora as expectativas, né? E expectativas sobre o outro no que diz respeito ao que você mesmo espera de uma paixão e relacionamento. A pobre coitada da pessoa, que está ali casualmente numa festa, numa livraria, no ponto do ônibus ou do outro lado da tela do app, se torna logo a responsável pela nossa felicidade eterna e por toda uma vida que desenhamos antes mesmo de esbarrar com ela casualmente ou através dos algoritmos virtuais. O que, convenhamos, é um peso enorme sobre qualquer pessoa que, pasme, pode nem mesmo querer isso para si.

Apaixonar-se é bom, é maravilhoso, é gostoso pra caralho. Mas acho que, parafraseando o pagodinho que embalou o início dos anos 2000, devemos deixar acontecer naturalmente. Sem planejar cada passo, sem considerar qualquer novo ou nova pretendente em uma relação em potencial, sem criar metas de felicidade envolvendo outras pessoas que não você mesmo.

Dá pra viver a vida e curtir as relações fugazes sem a maldita da expectativa e sem a obrigação de um match de sucesso. Dá pra curtir a própria companhia e ser feliz por si mesmo. Dá pra sair, beijar mil bocas e, ok, ser bom por ser exatamente assim. Dá pra gozar gostoso sozinho ou acompanhado. Dá pra ser leve e deixar tudo fluir, sem desespero ou cobranças para consigo mesmo.

E, na boa? Eu acho que estou muito no caminho certo, só exercitando o deboismo e vivendo o momento atual sem expectativas e cobranças desnecessárias. E, se por acaso algo acontecer e eu acabar me surpreendendo, que bom, né?

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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