sexta-feira, 13 de abril de 2018

E Por Falar Em Saudade...





Me tornei jornalista em 1999, ano em que a tão apocalíptica canção de Prince não saía de minha cabeça: "o céu estava todo púrpura e pessoas corriam por todos os lados tentando fugir da destruição... eu nem liguei (...) 2000, fim de festa, tempo esgotado! Por isso vou festejar como se fosse 1999”. Óbvio que todo aquele climão de “final contdown” tomou conta de toda a população mundial com o medo do que estava por vir.

Naquele mesmo ano ainda teve o temor do bug do milênio, com a corrida para corrigir e atualizar os sistemas operacionais antes que os primeiros fogos implodissem na hora da virada. Na época, eu estava terminando o meu estágio de jornalismo na área de comunicação do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e eu acreditava que a mudança de 99 para 00 poderia ocasionar uma pane generalizada no sistema aeroviário deixando os controladores de tráfego completamente perdidos, assim como o sistema bancário, que entenderia a mudança na data para um retorno ao ano 1900, fazendo com que os clientes com aplicações financeiras se tornassem devedores e que os boletos com vencimento em janeiro pudessem ser emitidos com o atraso de um século.

Felizmente, pouquíssimos transtornos realmente ocorreram naquele período. O tal do mundo não se acabou e tampouco os computadores se rebelaram contra a humanidade. Atualmente, quase 20 anos depois, custo a acreditar que eu conseguia trabalhar sem tanta tecnologia. A coisa mais radical que tínhamos naquele período eram as salas de bate-papo ainda com conexão discada, onde tínhamos que aguardar numa fila a sala esvaziar para podermos conversar com alguém do outro lado da linha com a mesma afinidade. Às vezes, para nos depararmos com o Fulano entrou na sala... tínhamos que esperar muito tempo. 

Anos antes da revolução do MSN, ainda tinha o ICQ, onde cada usuário tinha um número de identificação e precisávamos decorar aqueles algarismos todos para trocar minutos de prosa (pois a conexão caía a todo momento) em chats privados entre somente duas pessoas. 

O fato é que com o descortinamento do novo milênio, o mundo passou a viajar de um 14 Bis para um Boeing 777: anos mais tarde fomos arrebatados pela popularidade do Orkut e suas comunidades, a febre do Twitter, a explosão do Facebook, Instagram, Snapchat, Whatsapp...  E sem dizer dos apps. Hoje tem pra tudo: pra pegar táxi, para ver se tem engarrafamento, se tem tiroteio na volta para casa, app para saber se vai chover no fim de semana, para tradução simultânea, para editar vídeo, para fazer plástica nas suas fotos, app para fazer sexo, app para saber quantas calorias você perde andando, daqui a pouco vai ter app para continuarmos a viver.

Saudades do barulho das velhas máquinas Remington, saudades do tempo em que não esborrachávamos a cara no chão por prestar mais atenção em uma tela de celular. Saudades em que sentávamos na mesa de um restaurante e podíamos ouvir a voz dos amigos. Saudades do bate-papo no portão e das horas adentro pela madrugada namorando através do telefone fixo.

Saudade. Essa palavra tem origem segundo uma lenda da época do período dos descobrimentos e que estava relacionado com o sentimento de tristeza e melancolia que os portugueses que vieram para o Brasil tinham de sua terra natal. Apesar de não ter tradução literal em diversas línguas, está sempre intrínseca com a memória e a vontade de reviver momentos. Com origem no latim, tem o significado de solidão. 

Já pararam para refletir que a cada dia que passa estamos cada vez mais sozinhos então?

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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4 comentários:

Marcia Marino disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcia Marino disse...

Quanto mais tecnologia, mais solidão... Triste realidade...

JULIO CESAR BRITO disse...

As pessoas têm achado graca dos memes q se multiplicam na internet sobre esse tema. Às vezes, me pego vendo no YouTube filmes de ficção científica da época em q eu era adolescente e retratavam isso de alguma forma, e que causava temor... hoje, estou dentro desses mesmos filmes e me preocupo por eu também estar, mesmo sem sentir, me rendendo a isso tudo 😔😔😔

Marcia Pereira disse...

A tecnologia é pra ser usada, não pra nos usar...