sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Novo Jardim Das Delícias




Sabe aquelas revistinhas religiosas A Sentinela, publicada pelas Testemunhas de Jeová?  Recentemente descobri que elas existem desde 1879 e são distribuídas em 334 línguas, com tiragem de 70 milhões de exemplares, sendo a revista mais publicada em todo o mundo.   Então vou aproveitar e contar um segredinho pra vocês: eu tinha verdadeiro pavor daquelas capas.  Tinha um medo absurdo. Eu me tremia todo só de imaginar que pudesse existir um mundo tão perfeito com aquelas cores contrastadas... Aquelas paisagens campestres somente com pessoas alegres convivendo com leões e outros animais como pandas e coelhos falantes.

Na minha cabecinha infantil eu já discordava que o mundo não poderia ser assim tão perfeitinho, asséptico e imaculado, sem tristezas ou decepções.  E tampouco gostaria de conviver com elefantes, zebras e rinocerontes no meu quintal, tal qual uma Alice no País das Maravilhas, conversando com lebres e gatos sorridentes.  Ao mesmo tempo que aquilo tinha um lado mágico e surreal, também possuía uma morbidez disfarçada.  Aterrorizante, diria.  Mais tarde, na adolescência, ao descobrir as obras do pintor holandês Hieronymus Bosch, acabei realizando algumas associações com as famosas capas das revistas. 

Um dos quadros de Bosch que mais me impressionaram na adolescência foi o tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, que descreve a história da criação, no contexto religioso.  De um lado, o paraíso – Adão, Eva e Deus no meio de um cenário como nas revistinhas – elefantes, girafas, javalis, pássaros e unicórnios; o inferno – com criaturas bizarras, instrumentos musicais gigantescos, objetos cortantes, fogo, escuridão e a aura de escárnio e, na parte central, uma visão da Terra em si, com figuras celebrando os prazeres da carne e da luxúria, sem culpa.  O tríptico, quando fechado, apresenta a transcrição ele mesmo ordenou e tudo foi criado.
Obra "O Jardim das Delícias Terrenas", de Bosch

Atualmente, dá até para realizarmos uma terceira associação – vale ressaltar que a grande maioria das obras de Bosch também tinham esses três ângulos – com o mundo atual.  Estamos vivenciando uma nova onda onde esse mundo utópico e clean está sendo idealizado na cabeça de algumas pessoas... Um mundo perfumado, livre de corrupção.  Indivíduos que utilizam-se de uma armadura verde-amarela e vão para as ruas conversar com tucanos, patos e sapinhos.  Aquele velho mundo das capas de revista A Sentinela, sem cocô de cachorro pelas ruas, com aquele sol pairando nos risonhos e lindos campos e bosques com mais flores e vida.

Abram o quadro.  Admirem-no.  Analisem direitinho.  Aquele inferno de Bosch, com as grotescas e obscuras figuras de pecado e tentação estão ali, atrás do jogo de luzes e sombras, mas nem tão escondidas assim.  Só não enxerga quem não quer ver.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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