quarta-feira, 25 de abril de 2018

Uma Questão de Fé




Logo no começo da semana, tivemos a celebração a São Jorge, também lembrado pelo sincretismo com Ogum. Santo de devoção de muitos, ao ponto de ser feriado no Rio de Janeiro (com direito a uma das maiores queimas de fogos off-réveillon). Procissões por toda a cidade, fiéis vestidos de vermelho e branco, fazendo vigília e acompanhando a alvorada. Herança, talvez dos portugueses, cujo padroeiro é o lendário santo cavaleiro que venceu o dragão – e cuja chegada por aqui, olha só, é lembrada na véspera, 22 de abril. 

A fé, sem dúvida, deve ser um dos pontos mais inexplicáveis da existência humana. O campo mais obscuro de nossa consciência, mas que pode ser o mais iluminado de muitas personalidades. Acho curioso quem coloca fé e ciência em campos opostos: para mim, são complementares – inclusive um provoca o outro a ir mais além. E muito da ciência também é fé: a crença de que houve um Big Bang (com muitas comprovações – mas como isso se deu até hoje é nebuloso), a crença sobre os elos perdidos da nossa evolução, a crença de que existem vidas em outros planetas, a crença de que existe uma anti-matéria proporcional à matéria...

Nunca fui devoto de santo algum e nunca entendi muito essa ligação tão específica com apenas uma deidade. Ao mesmo tempo, sou uma pessoa bastante religiosa. Religião, por sinal, trata-se de se religar com algo que acreditamos que pertencemos, mas em que não estamos mais inseridos. Não se trata apenas de um deus ou outro especificamente...

Sabemos de muitos males que a religião pode causar em uma mente despreparada. A intolerância, o fundamentalismo, os excessos, a falta de compreensão sobre o livre-arbítrio do outro; tudo isso são apenas alguns pontos negativos numa análise rasa. Sabemos de crimes, inclusive mortes, que ocorrem em nome da fé cega. Inclusive abordei isso em mais de um conto do meu livro Perversão, mas mais claramente em um chamado Inferno

Mas seria a fé esse problema? Seria ela o gatilho? Para mim, a fé é como uma faca: você pode usar para passar manteiga no pão ou para matar alguém; a diferença está na intenção de quem a usa. É plenamente viável viver inserido numa religião e ter todo o respeito sobre o que os demais acreditam, convivendo em harmonia e paz. Inclusive com quem não acredita em nada. Assim como é viável veganos e vegetarianos conviverem com carnívoros sem cada um dos lados terem que ficar doutrinando goela abaixo o outro. Sem, inclusive, demonstrar “peninha” sobre a incompreensão do outro (já vi ateus lidarem assim com religiosos e vice-versa). 

Já conheci brilhantes mentes alinhadas com o que Cristo pregava que se diziam ateus ou agnósticos. Assim como já vi grandes defensores da ciência e céticos (como eu me considero em grande parte) viverem suas religiões. O principal não é acender vela para São Jorge ou buscar viver apenas de razões empíricas: é não sermos babacas desrespeitosos. Dessa forma, tem espaço pra todo mundo.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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