sexta-feira, 25 de maio de 2018

A Solidão Sem Alarmes ou Surpresas




O Brasil é uma nação onde a grande maioria das pessoas não sabe diferenciar rede social e mídia social, pois acreditam ser a mesma coisa. Se acrescentarmos nessa história os elementos histórico-acadêmico-sociais referentes às redes propriamente ditas, aí as coisas se embaralham de vez, pois todo mundo sempre vinculou “rede social” com “internet”. E mesmo com toda essa miscelânea, ainda assim o país é um dos poucos onde as redes sociais online sempre tiveram estrondosos êxitos, desde seus primórdios.

As redes sociais existem desde que os nossos antepassados neanderthais se reuniam em volta da fogueira e realizavam suas pinturas rupestres nas escuras paredes das cavernas. Ali surgiram as primeiras redes, cujo conceito era exatamente manter indivíduos conectados uns aos outros por meio de grupos ou comunidades. 

Raciocinando através desse modelo, você nem precisa ter aqueles seus vizinhos no seu perfil do Facebook: quando você os encontra na reunião de moradores e eles sentam ao seu lado para discutirem as propostas de melhorias para o condomínio em que residem, você está estabelecendo uma rede social com eles. 

E é exatamente essa relação sociológica dos laços e relações que tantos pesquisadores analisam ao redor do mundo, entre eles Manuel Castells, Claude Lévi-Strauss, Caroline Haythorntwaite, Raquel Recuero, Henry Jenkins e Pierre Lévy.

Lá na longínqua década de 1940, o sociólogo Ezra Park, da Universidade de Chicago, aperfeiçoou o conceito de determinismo tecnológico já iniciado por outro sociólogo americano, declarando que os dispositivos inovadores estavam modificando a estrutura e as funções de toda a sociedade. Mais tarde, na década de 1960, o filósofo canadense Marshall McLuhan criou a expressão o meio é a mensagem metaforizando a sociedade contemporânea com o estudo focado nos veículos de comunicação, chegando a conclusão de que os meios (mídias) é que carregam a própria mensagem e é isso que deveria ser analisado e não a mensagem por eles veiculadas, que era o que menos importava.

No início dos anos 1990, a internet era somente uma rede secreta do governo norte-americano. Ninguém poderia imaginar que em menos de dez anos ela se alastraria com bilhões de usuários conectados em todo o mundo. E o que a internet fez foi exatamente se apropriar desses estudos e estabelecer meios – as mídias sociais – para estreitar (ou não) esses laços, como o Facebook, Twitter, Instagram, blogs... 

Pode-se dizer que o Orkut foi a primeira mídia a fazer um sucesso estrondoso no país (aliás, só deu muito certo aqui no Brasil e na Índia) pois utilizou-se de todos os mecanismos presentes da cartilha dos pensadores e filósofos. Ali, naquela mídia social, estavam introduzidas centenas de ferramentas que só ratificavam as teorias de McLuhan, vislumbradas quase quatro décadas atrás, além dos princípios básicos das relações sociais orgânico-primitivas de Marcel Mauss e sua teoria da dádiva “dar-receber-retribuir” (você não deve se lembrar, mas, para poder ter uma conta no Orkut, você precisava ser convidado por um amigo especial, que só podia escolher entre os 10 mais e, depois, o ideal era você retribuir a gentileza classificando-o como confiável, legal ou sexy, além dos depoimentos públicos).

E no pré-Orkut, antes mesmo do ICQ, ou seja, láááá no paleozoico passado longínquo existia precursora do MSN, GrindR ou Tinder: a turma da linha cruzada, que aproveitava os prefixos das linhas defeituosas da velha Telerj e formava grupos de bate-papo pelo telefone, que se comunicavam através de nicks como Trovão Azul, Águia de Aço, Escorpião Negro e Penélope Charmosa. Os pseudônimos eram uma forma criativa de manter em sigilo as identidades para a companhia telefônica não descobrir a brincadeira, que dava o maior prejuízo para a empresa. Após as 23 horas, os jovens descobriam os prefixos com a falha e a comunicação entre o grupo era realizada entre os sinais das chamadas que não eram atendidas (geralmente eram telefones de escritórios). Nesse meio tempo, com dezenas de pessoas falando ao mesmo tempo e com muita azaração (onde as pessoas tentavam impressionar somente pelo tom de voz), trocavam seus telefones pessoais através do código das pedras preciosas onde cada nome correspondia a um algarismo. Era a pré-história do DM ou do privado. Era a internet antes da internet.

Hoje, com toda a tecnologia ao nosso lado, sempre tenho a impressão de que as pessoas se tornaram mais reclusas, como mencionei na coluna da semana passada. Custei a entender, mas essa concepção também havia sido prevista no passado: com a invenção do celular e da internet, o conceito de aldeia global (na verdade um espaço de convergência) se concretizou. O mundo interligado político-social realmente existe. As distâncias foram encurtadas. O tempo de locomoção foi acelerado. E temos a nítida impressão de que o mundo encolheu. Podemos falar com um amigo na Europa através de uma mensagem de vídeo em tempo real; acompanhamos nossos artistas preferidos através de seus stories no Instagram ou assistimos à transmissão instantânea de um show que está acontecendo do outro lado do mundo. Também houve o fortalecimento comercial através das expansões corporativo-financeiras. 

E exatamente por termos a sensação de estarmos nos relacionando o tempo inteiro com um mundo sem fronteiras, estamos cada vez mais e mais nos afastando uns dos outros dentro de nosso próprio mundo individualizado, sem alarmes ou surpresas, sob a luz fria e fluorescente na solidão dos nossos quartos.

Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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