terça-feira, 22 de maio de 2018

Abaixo à Chatice dos Politicamente Corretos! Somos Todos Iguais nas Nossas Diferenças





O casamento do Príncipe Harry com a atriz Meghan Markle e a Bahia branca da novela das nove, me trouxeram o tema de hoje, que acho já ter sido abordado aqui em algum momento, com outra roupagem. Confesso não ter ido olhar o histórico pregresso daqui do Barba para não me influenciar (nem me cercear, caso houvesse alguma divergência entre meu texto e o do colega).

Na semana passada, quando estreou a nova novela do horário nobre, uma enxurrada de críticas adentrou as redes sociais para falar da “Bahia branca demais” de O Segundo Sol. Chaaaato. Neste fim de semana, outra avalanche de comentaristas infestou a internet para falar sobre o coral de negros do casamento real britânico e a mãe da noiva com penteado de tranças tipicamente afro, classificando o evento com jargões do tipo “quebras de protocolo”. Sono.

Hoje em dia nada pode, todo mundo se ofende com tudo e tem um monte de gente posando de bacana na vida pública (leia-se redes sociais) e agindo bem diferente na esfera particular. Não temos respostas concretas, mas talvez uma das razões para esta chatice seja consequência do fato de que há uma tentativa de espalhar o conceito de que somos todos iguais. Nós não somos todos iguais e nem devemos ou queremos ser! Polêmico? Talvez. Sincero? Com certeza!

Sou afrodescendente e homossexual. Nem por isso vou me isolar numa tribo para dizer que minha conduta ou os meus pensamentos é que estão certos e por isso me considerar perseguido. Aqui, a minha liberdade de expressão está sendo exposta e, como tal, deve ser preservada e respeitada, ainda que discorde-se dela. O cidadão tem o direito de falar e de fazer o que quiser, desde que não ofenda ou não machuque outrem. Mas só o fato de não gostarmos de alguma coisa ou já termos visto algo melhor aos nossos olhos, somos classificados como desrespeitosos com a opinião alheia. O direito de falar e manifestar-se é garantido pela Constituição Federal, e de forma alguma discordar e preferir algo diferente é crime (a menos que esta conduta esteja prevista na referida Carta Magna ou um tipo penal de qualquer outro instrumento jurídico legislativo).

Para quem gosta de notas oficiais, que fique com a chatice, mas não impeça quem gosta de questionar e sair dessa mesmice, buscar novas interpretações, de ler, viver e de dar nova cor ao mundo (uma Bahia branca, por exemplo). O politicamente correto é insuportável e se temos que viver dessa maneira, então sinto-me à sombra da Idade Média novamente. 

Uma famosa atriz (nem tão talentosa assim e com váaaaaarios desvios de conduta), deu uma declaração debochada em seu Twiter essa semana, dizendo que a tal novela na verdade não se passava na Bahia e sim em Florianópolis. Temos várias interpretações para essa afirmação, vejamos: 
  1. Essa atriz, extremamente problemática e que por essa razão foi cortada da produção que sucederá a novela, está despeitada com a dispensa e resolveu criticar a obra. 
  2. Ela está sendo preconceituosa, pois quer dizer que na Bahia só tem negros e no sul só tem brancos? 
  3. Ela está apenas querendo fazer uma analogia inocente com a cor da pele predominante em cada estado? 
  4. É uma chatonilda vomitando regras que sequer pratica no dia-a-dia? Talvez ela não saiba, mas a atriz que foi escolhida para ser protagonista da obra foi justamente Thaís Araujo, por acaso, uma artista negra (que apesar de eu gostar muito, acho que de vez em quando também tem seu ativismo exacerbado). Porém, ela rejeitou o papel, por estar (muito bem, obrigado!) à frente de uma série na mesma emissora.
A outra chatice foi ver os inúmeros emoticons de “Ohhhhh, tem negros no coral do casamento real britânico” e “a mãe da noiva usa tranças afro ao lado da rainha mãe, quebrando protocolos” (acreditem, foram expressões que li!). Quer comportamento mais preconceituoso que esse? E olha que vieram de pessoas negras! O maior tapa na cara da sociedade, para mim, foi o discurso do reverendo Michael Curry, que deu um recado nas entrelinhas para Dona Beth, ao falar de regime escravagista em sua homília sobre o amor. Ora, a família real, nas pessoas de seus antepassados, foi uma das que alimentou o regime escravocrata na Inglaterra e no mundo. Ele precisou criar uma associação ou proferir um discurso persecutório? Não. Foi apenas inteligente e teve um discurso bem estruturado para incutir seu recado. 

Cada indivíduo tem a sua personalidade, suas necessidades, seus sonhos, suas conquistas e sua história, portanto são diferentes entre si. Tentar igualá-los, a meu ver, só pode gerar frustração e mediocridade. O que não é legal é ter comportamento discriminatório (A isso aplica-se também quem se põe no patamar da vitimização, ok?). A democracia garante a liberdade de expressão, gostemos ou não daquilo que é dito, desde que não os ofenda diretamente. Não gostar ou não concordar com o que é dito também não me dá o direito de prender, julgar ou matar quem me desagrada, ou que na minha vã fantasia tenha uma intenção subliminar de ofensa.

Na minha infância (que consigo resgatar através de reprises em um canal de TV a cabo), era tão mais divertido ver o humor dos Trapalhões, em que o Mussum era chamado de tiziu e o termo baitola não ofendia a classe LGBT. Dava altas gargalhadas com aquelas piadas e nem por isso fui influenciado em meu comportamento ou me senti discriminado. A abertura da novela Mulheres de Areia (1993), do horário das 18 horas, tinha uma Monica Carvalho belíssima de seios desnudos e, anos antes, na faixa das 19 horas, Brega e Chique (1987!), com um cara de bunda de fora sempre ao final do clipe, nunca me deixavam constrangido ao lado de familiares, que se reuniam na sala de estar para assistir as tramas. Até o carnaval, festa da irreverência, tem sofrido com a censura velada que está tornando nossa sociedade cada vez mais chata. As mulheres antes com seus corpos quase nus, estão cada vez mais vestidas, seja por censura ou pelo fato das feministas condenarem elas se exporem como objeto sexual. E se fosse? O corpo é da classe ou da própria pessoa?

Mas não pensem que, por tudo isso que escrevi, eu acredite que não lutar por causas políticas e sociais não seja um ato bacana para a construção de um mundo melhor. Apenas não compactuo com esta ditadura excessiva dos ofendidos e que contribui indiretamente para um processo crescente de censura. 

Já dizia o Anjo Pornográfico Nelson Rodrigues: 
“Outrora, os melhores pensavam pelos idiotas; hoje, os idiotas pensam pelos melhores. Criou-se uma situação realmente trágica: — ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina.”
Entendam como quiserem...

Leandro Faria  
Julio Britto, carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

2 comentários:

Leandro Bessa disse...

Perfeito e belíssimo texto

Enilton Figueredo Costa disse...

É, o primeiro texto do Barba Feita que eu discordo em algumas colocações.
O que pra o autor é "chatice", para alguns é representatividade, o que para você dá sono, para outros é ter espaço.
A Barbie negra nunca fez falta na minha infância, mas sei que para muita gente a problemática vem anterior a isto, até porque cada um sabe onde o seu calo aperta e não são todos os negros que lutam pela sua representatividade, assim como não são todas as mulheres que defendem o feminismos.
Utópico sonhar com um mundo igual, mas é possível um mundo sem grandes diferenças e com mais representatividades.