terça-feira, 8 de maio de 2018

Ensaio Sobre Um Casamento Duradouro: Uma Dissertação Sem Fórmulas




Na última semana de abril, completei dez anos de casado. E esse tema tem me inspirado a escrever muitas coisas nos últimos dias. Confesso que a minha ambição era a mais louca de todas: revelar os segredos de um casamento feliz. Tendo descoberto que seriam desaconselháveis os conselhos que queria dar, precisei reconhecer que, quase de certeza, só funcionariam na minha relação. 

Então, preferi dissertar sobre a instituição casamento à luz do meu olhar e da minha própria experiência e não expor uma receita de como conduzir uma relação. Afinal, as relações são unas em suas particularidades.

O casamento feliz não é nem um contrato nem uma relação. Relações, nós temos com toda a gente. Casamento é uma criação. É criado por duas pessoas que se amam. 

Nós nos permitimos muito pouco em matéria de felicidade, alegria, realização e, sobretudo, abertura com o outro. Hoje, vemos velhos e jovens casais solitários, dentro de casa, terrivelmente tristes fazendo parte de uma realidade terrivelmente comum. É difícil? É difícil. É duro? Muito. Com isso, concluí que o casamento é como se fosse um filho. Sim, um filho inteiramente dependente de nós. Se nós nos separarmos, ele morre. Mas não deixa de ser uma terceira entidade. Quando esse filho é amado por ambos os casados - que cuidam dele como se cuida de um bebê que vai crescendo -, o casamento é feliz. Não basta que os casados se amem um ao outro. Têm também de amar a relação que criaram. Precisam ter prazer em vivê-la.

O casal perfeito seria o que sabe aceitar a solidão inevitável do ser humano, sem se sentir isolado do parceiro – ou sem se isolar dele? O casal perfeito seria o que entende, aceita mas não se conforma (e por isso luta e se reinventa) com o desgaste de qualquer convívio e qualquer união? Não sei. Importante é não cair, de início, nos braços do outro como quem cai na armadilha do “enfim nunca mais só!”, porque aí é que a coisa começa a complicar. Você já entra numa relação num estado de dependência sem personalidade. Conviver é enfrentar o pior dos inimigos, o insidioso, o silencioso, o sempre à espreita, o incansável: um cara chamado tédio. E para enfrentá-lo, ter personalidade, ter vontades e ideias próprias, torna os debates sustentáveis e saudáveis.

Passada a primeira fase de paixão (desculpem, mas ela passa! O que não significa tédio, nem fim de tesão), a gente começa a amar de outro jeito. Ou a amar melhor; ou, aí é que a gente começa a amar de verdade. A querer bem, a apreciar, a respeitar, a valorizar, a mimar, a sentir falta, a conceder espaço, a querer que o outro cresça e que não fique grudado na gente. O cotidiano baixa sobre qualquer relação e qualquer vida, com a poeira do desencanto, do cansaço e do tédio. As contas à pagar, a empregada que não veio, as sogras com ciúmes, o emprego estressante e o chefe de mau humor.

E são as chatices do dia-a-dia que alimentam nossa irritação e falta de paciência. Mas essas chatices, às vezes, precisam ser expostas. Discutidas com a pessoa que você escolheu pra dividir sua vida. Tenha em mente, que essa pessoa é sua cúmplice, sua melhor amiga. A que você divide seus sonhos, suas angústias. Não dialogar com essa pessoa - que você escolheu pra dividir a vida - coisas importantes, é algo sério e que precisa ser repensado. Aí que a tal personalidade entra em ação. Ela te levará a construir argumentos e diálogos que alimentarão o tal filho. O que não pode é sair de casa e ter com outra pessoa essa abertura. Já diziam os Tribalistas na música Velha Infância que "o meu melhor amigo é o meu amor". Então, a principal conclusão que chego é que, mesmo na dor ou que cause dor, preciso ser sempre eu mesmo para aquela pessoa que escolhi viver ao lado todos os meus dias. Não se trata de ser o santinho, fielzinho ou como muitos jargões que já ouvi "detestar mentiras ou traições"

O casamento nada mais é que uma cultura secreta de hábitos, métodos e sistemas de comunicação. Todos foram criados do zero, a partir do material do eu e do tu originais. Foram concordados, são desenvolvidos, são revistos, são alterados e discutidos. Mas um casamento feliz com dez anos, tal como um filho de dez anos, tem uma personalidade mais rica e mais bem sustentada, expressa e divertida do que um bebê com um ano de idade. O casamento é um filho carente que dá mais prazer do que trabalho. Dá-se de comer ao bebê mas, felizmente, o organismo do bebê é que faz o trabalho dificílimo, embora automático, de converter essa comida em saúde e crescimento.

Também assim, é o casamento: precisa ser alimentado mas faz sozinho o aproveitamento do que lhe damos. Às vezes, adoece e tem de ser tratado com cuidados especiais. Às vezes, os casamentos, assim como os filhos, também têm de ir às pressas às urgências. Mas quanto mais crescem (e com alimentos cada vez mais saudáveis), menos emergências há e melhor sabemos lidar com elas.

É a mesma coisa com os casamentos felizes. Os pais felizes reconhecem o trabalho que os filhos dão, mas, na regra geral, acham que vale a pena. Isto é, que ficaram a ganhar, por muito que tenham perdido. O que recebem do filho compensa o que lhes deram. E mais: também pensam que fizeram bem ao filho. Sacrificam-se mas sentem-se recompensados. Se o casamento for pensado e vivido como uma troca vantajosa - tu dás-me isto e eu dou-te aquilo e ambos ficamos melhores do que se estivéssemos sozinhos -, até pode ser feliz (tenho minhas dúvidas...), mas não é um casamento de amor. Quando se ama, não se consegue pensar assim.

E agora vem a parte em que se percebe que estes conselhos de nada valem - porque quando se ama e se é amado, é fácil ser-se feliz. É uma sorte estar-se casado com a pessoa que se ama, mesmo que ela não nos ame. Ouvir uma pessoa casada feliz a falar dos segredos de um casamento pleno é como ouvir um bilionário a explicar como é que se deve tomar conta de uma frota de aviões particulares - quantos e quais se devem comprar e quais as garrafas que se deve ter no bar, para agradar aos convidados. 

Talvez possa ter sido tudo tão confuso até aqui. Mas, a verdade é que meu casamento ainda é um mistério para mim. É um mistério que adoro, mas constitui uma ignorância especulativa quase total. Viver é um heroísmo, viver bem um amor mais ainda. O casal perfeito talvez seja aquele que não desiste de correr atrás do sonho de que, apesar dos pesares, a cada dia, se escolheria novamente para viver tudo de novo ao lado daquela mesma pessoa.

Dedico esse texto ao meu grande e único amor da vida. Aquele que descubro todos os dias coisas novas e mesmo nas mais dolorosas situações que vivemos ao longo destes anos, certamente escolheria vivê-las ao seu lado novamente.

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Leandro Faria  
Julio Britto, carioca, advogado, amante de telenovelas, samba e axé music. Ator nas horas vagas, fã de Nelson Rodrigues e tudo relacionado a cultura trash. É leonino de 29 de julho de 1980, por acaso, uma terça-feira, mesmo dia da semana colabora aqui no Barba Feita.
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2 comentários:

Marcelo Assis disse...

Acho que uma união ser duradoura, precisa ter cumplicidade e empatia um com o outro sempre...

Marcia Marino disse...

Nunca fui fã da entidade chamada casamento. Sempre ouvia (e ainda ouço) várias definições para o "casamento feliz". Levei muitos anos para me casar. E valeu a pena esperar tanto. Seu texto vai muito com as minhas ideias e concepções sobre o casamento. Parabéns!!