quarta-feira, 23 de maio de 2018

Mais Realistas Que o Rei





O casamento real entre o príncipe Harry e a agora duquesa Meghan Markle foi assunto em grande parte da imprensa brasileira e mundial nos últimos dias. No fim de semana foi, sem dúvida, o que mais centralizou as atenções da audiência. Sabe-se que a Monarquia Britânica é muito mais um atrativo turístico e sensacionalista do que algo essencial ao Estado. Eu não acompanhei nada, apenas vi os memes e vídeos posteriores. Mas quando a Família Real se une para casar um herdeiro e uma (então) plebeia, temos a oportunidade de revelar mais sobre nós mesmos do que sobre a Realeza. 

Houve quem reproduzisse a atmosfera do casamento em uma festa no Leblon, reduto da high society carioca e palco das novelas de Manoel Carlos, com direito a projeção dos vitrais da capela da cerimônia e bolo com 15 dimensões feito por cerca de R$ 13 mil. Tudo para se sentir parte da festa, como um verdadeiro convidado da Família Real mais tradicional do globo terrestre. Alheios à crise que leva os mendigos até as suas esquinas, ou, talvez, buscando um refúgio dela para se mostrar superior à realidade brasileira. 

Também houve quem dissesse que Meghan Markle, uma americana divorciada, com ascendência negra e três anos mais velha do que o príncipe, era algo que a Rainha Elizabeth II ia ter que engolir. É sabido que a rainha não era uma pessoa fácil e que teve papel fundamental na crise conjugal envolvendo o príncipe Charles, a princesa Diana e sua então amante Camila Parker-Bowles. Que a falecida tinha vários problemas de relacionamento com ela. Porém, quem disse que Elizabeth II não teve seu aprendizado e mudou? Ou mesmo que era preconceituosa contra negros e seus descendentes? Sim, a Inglaterra tem uma dívida histórica com a África, pela exploração, mas, principalmente, pelo comércio escravagista. 

Contudo, era muito mais simbólico o casamento em si, com as bênçãos da rainha, com um reverendo negro celebrando e aquela representante com DNA africano entrando pela porta da frente sozinha, sem um homem para entregá-la a outro homem, do que qualquer ato que a majestade pudesse fazer para tentar reparar um passado irreparável. Infelizmente, boa parte das pessoas acaba enxergando o lado mais ignóbil do ser humano, em vez de olhar suas virtudes, sequer dando crédito à possibilidade de mudança para melhor. 

Aprendizado que o “sucessor do trono” brasileiro, Dom Bertrand de Orleans e Bragança, poderia ter tido. Demonstrando não estar cansado de ser chacota nacional o fato de ainda se considerar herdeiro de algo, o tal príncipe resolveu dizer que jamais autorizaria o casamento, por ser Meghan Markle uma divorciada. Que o ideal seria Harry ter se casado com uma princesa ou “mulher de família nobre”. Realmente, essa pagação de mico da família real brasileira nos faz entender por que a nossa população (em especial as classes mais altas e a classe média) está sempre nesse anseio de wanna be e não se enxerga como um povo mestiço, cheio de dívidas com pobres, negros, índios, mulheres e homossexuais, e que precisa buscar mais igualdade para, enfim, ser mais do que é hoje em dia. É aquele velho ditado de “querer ser mais realista que o rei”

Quis o destino que a data escolhida para o casamento fosse exatamente o aniversário de decapitação de Ana Bolena, esposa de Henrique VIII, acusada de alta traição ao Estado. O então rei era homônimo do noivo do último fim de semana (Harry, na verdade, é apelido de Henry, que é Henrique em inglês) e seu casamento com Ana Bolena foi justamente o momento de ruptura da Inglaterra com a Igreja Católica, com a consequente fundação da Igreja Anglicana. Um dos mais influentes monarcas ingleses de todos os tempos. Pode parecer besteira, mas foi uma data marcante para a Realeza britânica e ter uma feminista divorciada entrando para a mesma Realeza quase cinco séculos depois é a simbologia de que avançamos alguma coisa. 

A própria Meghan ter uma foto na frente do palácio de Buckingham com 15 anos como mochileira e, mais de 20 anos depois, entrar pela porta da frente desse mesmo palácio como parte da Família Real já é um sinal de transformação. Não que ela precisasse disso para ser realizada. Mas se ela encontrou o amor improvável no filho mais novo de Charles e Diana, não havia muito o que fazer a não ser entender que todos estamos suscetíveis a amar, tenha sangue azul ou não. E as palavras apaixonadas de Harry para ela no altar de que ela estava incrível e que era um cara sortudo tinham muito mais nobreza que toda a pompa e circunstância que os cercavam. 

Definitivamente, o casamento real revelou mais sobre nós mesmos do que sobre a Realeza. Após vivenciar fugazes momentos de sonhos de princesa pela televisão, os plebeus podem retornar à sua realidade de pagar boletos e pegar transporte público. Que ao menos se enxerguem e enxerguem também os plebeus que estão à sua volta e muito mais próximos do que as Altezas encasteladas do Reino Unido.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: