sexta-feira, 18 de maio de 2018

Mind the Gap





Enquanto aguardava a chegada do trem na lotada plataforma da estação do metrô de Botafogo, observava o vai-vém frenético das pessoas, com uma certa tristeza no olhar. De um tempo pra cá, passei a prestar mais atenção nelas, sempre ávidas por chegar a um lugar imaginário, conectadas a seus inseparáveis smartphohes, como seus . Por mais que estivessem em grupos, pareciam estar cada vez mais isoladas, aprisionados em uma ansiedade constante. Zygmunt Bauman, o grande pensador da modernidade e o criador do conceito da liquidez presente na sociedade sempre esteve corretíssimo.  

Não temos mais tempo para ouvir a voz dos amigos. O feliz aniversário cada vez mais se resume a congratulações via WhatsApp e daqui a pouquíssimo tempo, imagens paralinguísticas resumirão fins de relacionamento, desejos de um feliz Natal ou Ano Novo. Nos bares, não existirão burburinhos. O eletro-tuntz-tuntz-tuntz reverberado das caixas de saída de um laptop sem DJ ecoarão nos rostos iluminados pelas telas dos celulares. Rostos vazios sintetizados a emoticons.

Lembrei de Fitter Happier, uma faixa do clássico disco OK Computer (de 1997) do Radiohed, que não chega a ser uma canção, em si. É um interlúdio com menos de dois minutos, dividindo o disco ao meio com a nota dissonante de um piano, distorções e uma voz robotizada e, ao mesmo tempo, melancólica, como se a máquina narrasse a letra, com uma certa emoção.

O relato é uma lista de ações contemporâneas como ser mais produtivo e não beber demais, praticar exercícios regulares, comer saudavelmente e livre de gorduras saturadas, dormir bem, ter um carro mais seguro, ter obrigatoriamente um contato maior com os amigos, ser mais pragmático, se livrar das paranoias, não chorar em público, não ter mais medo das sombras, não ser ridiculamente adolescente e muitas outras. No fim, a frase um porco em uma jaula com antibióticos chega a nos assustar, pois é impossível não nos situarmos dentro do contexto.

Nos tornamos o animal enjaulado neste cenário político perturbador. Somos os novos seres-sociais alienados e decepcionados com o mundo contemporâneo, com o consumismo desenfreado e deprimente. Somos os indivíduos dos follows e unfollows frenéticos, de stories de 15 segundos de kkkkk´s automatizados sem mover os músculos da face. Somos julgados pela quantidade de seguidores e fãs. É o fim da conversa do portão, dos papos intermináveis ao telefone madrugada adentro, das risadas escancaradas e do tilintar das taças de cristal e vinho barato. Nos tornamos os zumbis neotecnológicos.

Minutos passam e as portas do trem se abrem. As pessoas, sem desgrudar de seus aparelhos que enraízam aos membros superiores, em passos coordenados se acotovelam no vagão e são alertadas pela voz mecânica e resignada. 

Atenção. Portas se fechando.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

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