quarta-feira, 30 de maio de 2018

O Fruto Amargo da Expectativa




Quando eu era pequeno, uma das frases do meu pai que mais me marcaram foi quando ele disse que era mais fácil um relacionamento durar pela admiração do que pelo amor. Para ele, perder o amor não significava o fim, mas, sim, quando não existia mais motivos para admirar aquela pessoa de alguma forma. Nisso ele se referia a toda e qualquer relação humana: marital, amizade e até de pai e filho. Talvez por isso eu sempre tentei fazer de tudo para ser para ele motivo de orgulho.

Lembro-me de ter discordado dele. Era um absurdo, pra mim, ele colocar o amor abaixo da admiração. Depois de muitos anos eu vim a compreender que somente o sentimento afetivo não basta realmente... Existem muitas outras variáveis em qualquer relação, que passam por respeito, confiança, companheirismo e admiração também.

Por isso, talvez, a decepção seja algo tão doloroso. É difícil lidarmos de um "tombo do cavalo" por conta de alguém de quem esperávamos tanto. Lidar com esse fruto amargo da expectativa é uma experiência das piores, ainda que existam muitos outros frutos doces da mesma árvore. Mas no momento da decepção acabamos nos atendo muito mais à amargura.

Deixar o gosto amargo de lado não é fácil. Somos humanos e estamos suscetíveis a falhar e decepcionar ou a nos decepcionamos com alguém que falha. Viver sempre à espera de uma aprovação ou de ser digno de admiração é cruel, mas também é instintivo: meu pai no máximo sintetizou uma realidade humana desde que o mundo é mundo.

Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookInstagram


A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Nenhum comentário: