sexta-feira, 4 de maio de 2018

Reflexões Sobre o Eterno Aprendizado




Hoje eu queria falar um pouco sobre internet e tecnologia.  Sempre achei que não fosse capaz de aprender a ligar um computador.  Minha geração foi aquela que nasceu após o baby boom pós-Segunda Guerra, a tão conhecida Geração X, que teve que enfrentar aquele futuro incerto e hostil, a ameaça nuclear e a epidemia da AIDS, exatamente quando estávamos com os hormônios à flor da pele.  Sempre digo que a Geração X é uma sobrevivente.

Fiz cursinho de datilografia e o máximo que eu vivi de tecnologia era poder jogar Enduro e Pitfall no velho Atari de guerra.  Não me recordo muito bem quando ouvi falar sobre internet pela primeira vez.  Mas lembro muito bem onde foi:  estava passando férias em Araguari, uma cidade do interior de Minas Gerais, onde parte de minha família reside até hoje.

Araguari fica no Triângulo Mineiro, terra de Farnese de Andrade, um dos representantes mais interessantes da arte moderna (que tive o prazer de conhecer e me tornar fã) e uma das áreas mais ricas do Estado, junto de Uberlândia e Uberaba.  Existe até um projeto de emancipação desta região, que formaria o estado do Triângulo, que possui uma forte economia no setor agrícola e pecuário.  Araguari é a cidade mineira que mais produz maracujá, tomate, soja e café.  E de lá também existem as principais empresas de sucos do país (Maguary, Dafruta e Izzy) que produzem 70% do consumo do país.  

Voltando à questão da internet, quando ouvi falar sobre esse assunto, sequer sabia do que se tratava direito.  Quem me explicou foi um mulequinho franzino, bem mais novo que os demais integrantes da patota que agitava a pequena cidade:  Ronaldo Lemos, ou o Lonaldin´ pra gente.  Ronaldo sempre escreveu muito bem e, como na época eu escrevia um fanzine divulgando a cena underground, o convidei para ser colaborador e ele, de imediato, topou.  Escreveu uns textos superbacanas sobre o Expressionismo Alemão e um artigo maravilhoso sobre Franz Kafka, que guardo até hoje. 

Sempre o incentivei a se tornar jornalista e ele tinha uma ideia fixa em ser advogado.  E dizia que iria ser um especialista em direito autoral na internet.  Confesso que naquele tempo minha cabeça dava um nó com as coisas que ele dizia.  Achava ele meio maluquinho mas, na verdade, ele sempre teve certeza do caminho a seguir. 

Em um de nossos papos que duravam a madrugada inteira, certa vez Ronaldo me explicou que o acesso à informação em Araguari, ainda na década de 1980, foi privilegiado.  A cidade foi a primeira do Brasil a receber o sinal de testes de TV a cabo, o que acabou abrindo uma janela para o infinito para os cidadãos da cidade.

Foi lá que ouvi pela primeira vez o barulho ensurdecedor das guitarras do Nirvana (muito tempo antes de estourarem na MTV) e da estridência do Smashing Pumpkins.  Numa das festinhas que fazíamos na casa dos amigos, já meio altinhos, dávamos mosh do sofá ao som dos Pixies.  Ronaldo, sempre fazia questão de dividir o conhecimento com os amigos, nos apresentando às bandas jamais ouvidas:  foi através dele que descobri o Pavement, o Poster Children, o Chainsaw Kittens... E foi por causa dele que a minha curiosidade foi atiçada para ouvir toda a discografia do Bowie.  Enquanto a maioria dos nossos amigos curtiam o som pesado do Slayer e do Black Sabbath, nos divertíamos com o Ziggy Stardust, que acabou sendo, inclusive, um de seus apelidos carinhosos.

E não estou falando somente do mundo underground não!  Foi em Araguari que ouvi pela primeira vez Mamonas Assassinas!  Os amigos de lá até riam de mim... Afinal, como um carinha jovem, vindo da capital, não conhecia essas coisas?   

As férias em Araguari sempre foram as mais agradáveis e as mais esperadas.  Sempre chegava lá ávido por conhecimento e era sempre um prazer poder reencontrar os velhos amigos e passar noites e noites em claro compartilhando conhecimento.

A foto que ilustra a coluna de hoje foi tirada naquela época de descobrimentos musicais e pré-internet, em uma máquina fotográfica analógica (aquelas que vinham com um rolo de filme de 12, 24 ou 36 poses) e clicada pela prima Erika.  Ali estão os quatro amigos: eu, Ronaldo, Dirani e Beto e, ao fundo, a cidade de Araguari.

De lá pra cá muita coisa mudou.  E nossas vidas também, que sempre foram acompanhadas pelas redes sociais: do Orkut para o Twitter, do Twitter para o Facebook, do Facebook para o Snapchat, do Snapchat para o Whatsapp...  Essa semana tive o prazer de reencontrar o Ronaldo dando uma entrevista para o Conversa com o Bial.  Ronaldo fez direito na USP, estudou em Harvard e se tornou uma das maiores autoridades mundiais em negócios na era digital.  Foi um dos responsáveis por trazer para o Brasil as licenças da Creative Commons, uma forma mais ágil de licenciar livros, filmes e músicas.  Foi curador de festivais de músicas e esteve envolvido diretamente na criação do marco civil da internet, estabelecendo direitos e deveres das empresas, governos e a sociedade na rede.

Bateu um puta orgulho e por isso.  Por ele estar certo desde adolescente!  Lembrei muito de todas aquelas férias sempre inesquecíveis e agradecer por ter aprendido tanto com esses meninos.  Queria dizer que hoje sou o que sou, também graças a eles.  Senti a necessidade de dizer isso e transformar essa coluna numa gratidão.  Não é por um acaso que pessoas cruzam nossos caminhos. 

Nunca é por acaso.

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Ana Paula Rocha disse...

Que viagem no tempo, mais um texto brilhante entre tantos. E é verdade, nada acontece por acaso.