quarta-feira, 9 de maio de 2018

Sobre Heróis e Humanos




Lá fomos nós ver Vingadores: Guerra Infinita. Sim, um filmaço, principalmente para quem é fã do universo Marvel e vinha acompanhando as histórias anteriores (admito que sempre fui mais afeito à DC Comics e cheguei a ter uma pequena coleção em casa de revistinhas muitos anos atrás). Um filme que trouxe um vilão cheio de complexidades e explicações e que amarra bem tudo o que se passou anteriormente. Mas, mais do que falar sobre a película, vim falar de heróis. Por que damos tanta audiência para eles?

O Super-Homem completou 80 anos recentemente. Lembro-me que, quando fui ao Museu da História Americana, em Washington DC, havia um capítulo para falar dele. Era um momento entre guerras mundiais, a Bolsa de Nova York havia quebrado tinha pouco tempo, os americanos ainda estavam se recuperando de vários baques e estavam prestes a enfrentar outro... Quando surge um ser meio humano, com o uniforme nas cores da bandeira estadunidense, para salvar o planeta Terra. Quem não queria, àquela altura, acreditar nisso?

Super-Homem é, ainda, uma metáfora para Jesus Cristo: veio de outra realidade enviado por seus pais verdadeiros para ser criado na Terra por pais adotivos e, novamente, salvar o planeta. Um grande Messias. Uma história bem familiar ao subconsciente de muita gente.

E aí remetemos a Jesus. O maior herói da era bíblica. Para alguns, o filho e a forma humana de Deus. Para outros, um grande médium; para alguns, um grande profeta ou apenas uma figura histórica; para outros ainda, uma farsa inventada. Aquele que embasou a criação do catolicismo, ainda que a Igreja tenha pensado em abandonar seu ícone nos primórdios (sim, pois houve um debate a respeito da postura supostamente suicida de Jesus: ele teria como se livrar da cruz, mas aceitou morrer silencioso como um cordeiro). 

O ser humano sempre precisou de heróis, fossem eles com superpoderes ou não. Também no mesmo museu nos EUA era explicado esse fascínio dos americanos pelos heróis de ascensão imediata. Alguém que fazia algo fora do comum no dia-a-dia e ia para o noticiário, como um jogador de basquete que, de forma improvável, saiu do banco e fez a cesta que garantiu a vitória do seu time. No Brasil, também vemos isso, ainda que em menor escala. Mas contar histórias por meio de um herói dá sempre mais molho...

Mas tudo isso também dá medo. Estamos nos aproximando de um período de eleições gerais no Brasil. Sem desmerecer outros pleitos, mas o de agora talvez seja um dos mais importantes de toda a nossa História, o mais movimentado desde 1989. E cada vez mais se espera um "Salvador da pátria", um Messias da política para vir consertar "tudo isso que aí está". Já vimos onde isso parou em outros momentos...

É cômodo à Humanidade falha jogar a responsabilidade sobre si nas mãos de um ser mais dotado do que nós. Não olhar para nossas falhas estruturais e não querer mudá-las é o que mais faz desejar alguém com superpoderes: para perpetuar essas mesmas falhas, lavando as nossas mãos.

Esse, sim, parece ser um ciclo mais infinito do que a Guerra que dá título ao novo episódio dos Vingadores.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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