quarta-feira, 6 de junho de 2018

A Menina Disse Coisas




Encontrei um amigo algumas semanas atrás e ele me perguntou:
"Já foi ver a peça da Aline Carrocino? Pois vá, está sensacional. Valeu a pena toda a ausência dela"
Aline é uma grande amiga e companheira de outras missões e, nos últimos meses, teve que se ausentar do nosso convívio constante por conta da dedicação ao Teatro, como produtora e também como atriz. Além de estar em cartaz em outros espetáculos infantis, como Luiz e Nazinha e Bituca, ela foi escalada para protagonizar o musical Nara - A Menina Disse Coisas, o que lhe sugou muito do tempo disponível de sua vida (ainda dividindo a responsabilidade com um filho pequeno, de um ano de idade). Mas, como me foi alertado, valeu muito a pena.

Ir assistir a um espetáculo sobre Nara Leão (Vitória, 19 de janeiro de 1942 - Rio de Janeiro, 7 de junho de 1989) é quase como ir a um jogo de futebol de dois clubes desconhecidos: você chega sabendo pouco sobre ela e sai surpreendido com a sua história, principalmente pelo olhar que o autor da peça, o jornalista Cristovam Chevalier (outro querido!), lança sobre a homenageada. Admito que pouco sabia de Nara: era uma cantora brasileira que teve seu destaque numa época em que a minha mãe tinha suas preferências musicais (e não passavam por ela). Foi um tempo em que grandes vozes tiveram evidência, como Elis Regina e Maysa, e Nara era considerada pouco potente e menos afinada. Era chamada de "Musa da Bossa Nova", mas não gostava do rótulo. Enveredou-se por diversos estilos (mas, por fim, admitia que a Bossa Nova era o que mais sentia tocar-lhe o coração).

Trazer Nara Leão para a evidência em um musical atual é fundamental para resgatar parte importante de nossa história musical. Nara acabou se tornando uma ativista contra a Ditadura Militar vigente, ainda que não voluntariamente, e foi vigiada e perseguida. Denunciou muitas coisas que ocorriam nos porões do regime de exceção, tanto através da música quanto em seus discursos. Inclusive o título do espetáculo, A Menina Disse Coisas, vem de um poema, Apelo, escrito em 1966 por Carlos Drummond de Andrade para sensibilizar os militares que haviam pedido a prisão da artista. Viveu um exílio em Paris e, no retorno, começou a ter seus lapsos de memória como o que o correu no meio do show com o Cláudio Lyra que serve de pontapé inicial para o espetáculo. Era o início de um tumor no cérebro que encerrou sua vida em 1989. 

Aline divide a cena com Marcos França, dramaturgo que canta muitíssimo bem ao seu lado e interpreta diversos personagens masculinos que fizeram parte da trajetória de Nara. Em relação a Aline, já a vi atuar em outros espetáculos e papéis, mas talvez nenhum tão emblemático como esse. Ela dá vida a uma Nara extremamente contida e que se inflama na hora certa (levando a plateia junto consigo num discurso assustadoramente atual). Ver seu trabalho de defesa de uma personagem muito conhecida de nome mas de história pouco reconhecida, buscando dar o tom certo até no seu estilo vocal, é um primor. Realmente, valeu sua ausência para se dedicar ao projeto.

A propósito: Nara - A Menina Disse Coisas, está em cartaz na Sala Baden Powell, em Copacabana. Corre lá!

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor dos livros Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades e Perversão. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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