sexta-feira, 1 de junho de 2018

Amizades




Numa dessas noites de papo-vai e papo-vem em algum barzinho da vida, alguém se espantou quando afirmei que tenho um grupo de amigos há mais de três décadas e que, todos os anos nos encontramos para rir um pouco, jogar conversa fora e atar ainda mais os nós de nossa amizade. Como já é tradição, até rola uma brincadeira de amigo-oculto, onde nesses trinta anos, nem é mais novidade, já que todos nós já “tiramos” uns aos outros por diversas vezes. 

Nesse grupo, fomos recebendo mais integrantes: da turma original somaram-se os maridos, esposas, filhos, namorados... e tenho certeza de que, ainda por muitos anos, ainda nos divertiremos com a troca de presentes, mesmo que, velhinhos, presenteemo-nos com o deboche na entrega de caixas de Dorflex e medicamentos para a falta de memória.

Ainda tenho cartas de amigos da época do colégio. Numa época sem celulares e até mesmo os raros telefones fixos, a única forma de nos comunicarmos era escrevendo longas cartas quando as férias chegavam. Havia briguinhas e desentendimentos, claro... mas aquela proximidade de sentar na beira da praia, deitar na areia úmida e ficar olhando para o vasto céu de estrelas, rindo de bobagens era algo bem normal entre os amigos.

Cansei de virar noites conversando no portão de casa, jogando “Perfil” no chão da sala ou fazendo luau na praia naquele verdadeiro modelo “música para acampamentos”. Acho que tínhamos mais tempo de compreender o outro. Sinto falta disso nas pessoas que convivem ao meu redor atualmente.

Bauman tem sido meu autor de cabeceira. E seus conceitos líquidos sobre o tempo, o medo e o amor cada dia que passa me assustam e ratificam que é impossível fazer com que os relacionamentos modernos tenham essa mesma força. Ao que tudo indica, em um mundo com tanta velocidade, o amor-próprio disfarçado de um sentimento egoísta prevalece.

Ultimamente perdi alguns amigos. Uns três ou quatro. Amigos mais recentes, com menos de uma década... ou seja, uma amizade que já nasceu nesse tempo-líquido baumaniano: amizades que esperam muito mais do que a tríade da dádiva de “dar-receber-retribuir”. Aqui, elas esperam muito mais o “receber” do que o “dar” ou “retribuir”. Se você diz um único “não”, gera uma insatisfação e um afastamento. Se esquecem de que, para cultivar uma amizade, precisamos usar aquela velha fórmula de irrigar o algodão todos os dias para que o grão de feijão brote e se torne uma vasta plantação.

Terminar uma amizade é fácil nos dias de hoje. Você simplesmente aperta um botão de bloqueio no WhatsApp. Ou exclui de seus amigos no Facebook. Ou deixa de seguir no Instagram. Não há espaço para diálogos em um mundo tão veloz. No barzinho da esquina, no novo curso ou na nova cidade, há um cardápio variado de novos amigos, com prazo de validade.

Cultivar amigos não é fácil. Não... não é mesmo. Você precisa suar para, de vez em quando, afofar a terra, adubar, retirar as ervas daninhas, regar, proteger do sol forte... e isso se chama “doar” e é indicado para preservar qualquer relação social, seja amizade ou até um relacionamento mais íntimo. Não dá pra ser amigo ou companheiro de alguém que não se esforça nem um milímetro para sofrer um pouquinho por você... sair da zona de conforto de sua própria estátua e correr para o abraço.

Como já dizia Renato Russo, “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade não há”. Portanto, desligue-se e abracem-se. E que seja infinito enquanto dure.
               
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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

3 comentários:

progrockmaniac disse...

Querido amigo. Eu estou, e sempre estarei, pronto para correr para o seu e para o abraço dos nossos amigos, da nossa turma. Devo admitir que estas malditas redes (in)sociais machucaram um pouco(eu disse um pouco) algumas amizades de décadas mas, não guardo mágoas, não tenho ódio, o que eu sinto é muita saudade e isto me machuca demais. Porra, por que vc escreveu isto? Agora estou com lágrimas nos olhos, lágrimas de saudades. Mas, já passa logo. Só quero dizer que perdoar, conversar e esquecer é essencial, importante. São palavras e atitudes que ainda cabem no meu coração. Só peço que não tenham ódio de mim, não guardem mágoas de mim, não me desprezem pois, como vc mesmo escreveu, inspirado em Renato Russo "é preciso amar como não houvesse amanhã". Beijo no seu coração. Sérgio Lucindo.

Antenor Oliveira disse...

Me passou um filme ao ler a sua crônica. Vivemos em tempos líquidos. As relações precisam ser preservadas com gestos, atitudes e afeto. Isso vai além de uma curtida nas redes sociais.

Marcia Marino disse...

Meu lindo e querido amigo!!! Graças a Deus faço parte de um grupo de superamigos!! Nossa família cresceu, já tivemos algumas baixas, mas continuamos firmes e felizes. Lindo texto! Parabéns!! ♥️