sexta-feira, 8 de junho de 2018

Dando um Chapéu na Melancolia




Faltam poucos dias para a Copa do Mundo.  E pela primeira vez em toda a minha vida, ainda não tinha notado um único lampejo de entusiasmo desse povo.  Aí no final da semana passada vi uma molecada super-animada realizando a tradicional pintura do asfalto e pendurando as bandeirinhas verde-amarelas em uma tradicional rua vizinha à avenida onde moro. 

A alegria durou pouco.  Na calada de uma madrugada, toda a decoração foi vandalizada.  Aos primeiros raios do amanhecer, a vizinhança incrédula, não conseguia compreender o porquê de alguma criatura insana ter feito aquela barbaridade.  Diante dos olhares entristecidos, um engravatado, bradando em tons acima da média, tinha orgasmos múltiplos ao ver a cena.  Para ele, toda aquela destruição de um árduo trabalho tinha sua nítida aprovação.

Num misto de nojo e pena, o olhei com desprezo.  O que nos dá o direito de, mesmo não gostando ou compactuando com uma ideia, querermos destruir os sonhos de outras pessoas?  Se você não gosta ou não sabe jogar futebol, não ouse querer dar um balãozinho.  Mas parece que “puxar o tapete” dos outros se tornou quase um mantra dos tempos modernos.

Sei que estamos vivenciando um momento de profunda crise política no Brasil que está até mesmo refletindo em algo existencial. Mas futebol e carnaval eram algumas das poucas que faziam-nos esquecer dos problemas.  Ao que tudo indica, o lema “deem-lhes pão e circo” não está mais surtindo efeito.  As coisas estão tão feias que nem mais o futebol está servindo de inspiração para a algazarra.  Até o Alzirão, a mais antiga e popular festa que durante 78 anos de Copa animava as ruas da Tijuca, não vai acontecer.

Tá um climão de velório, tal qual os dias e as horas que sucederam-se após o apito final daquele humilhante 7 x 1 alemão em 2014.  Pelo menos, há quatro anos atrás, ainda sabia que o Fuleco era o nome do mascote dos jogos e que a bola oficial se chamava Brazuca.  Nesta nova Copa, tão fria quanto longínqua, não sei o nome de nada, nem a escalação do time tupiniquim.  Só sei que Neymar joga pois a Bruna Marquezine vive aparecendo na minha timeline.

Mas ainda faltam alguns dias.  Assim como tenho certeza de que a rua que teve a decoração destruída ressurgirá das cinzas, o som peculiar das vuvuzelas ecoarão pelas janelas suburbanas.  Nem Galvão Bueno às 9 da manhã ou tampouco o fuso horário nos impedirá, vestidos de peruca Black Power amarelo-canário, de estarmos preparados para dar um chapéu na melancolia até a primeira bola estufar a rede do adversário.      

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Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista em Gestão Estratégica de Comunicação e Mestre em Ciências em Saúde. Nas horas vagas é vocalista da banda de rock Soft & Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix. E também o colunista das sextas-feiras aqui no Barba Feita.
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A opinião dos colunistas não representa necessariamente a posição editorial do Barba Feita, sendo estes livres para se expressarem de acordo com suas ideologias e opiniões.

Um comentário:

Marcia Pereira disse...

É uma realidade que impõe tristeza e nos torna descrentes até na possibilidade de dar a volta por cima!